As três cantatas de Johann Sebastian Bach para o terceiro Domingo após Pascoa em comparação
Axel Bergstedt
Para o terceiro Domingo após
Uma CoMparação
Tese
(Faculdade para música e teatro)
Hamburgo
1995
Leia o livro aqui ou abaixe-o em forma de pdf, epub ou mobi. A forma de pdf é mais recomendável por causa das gráficas, mas para ler os textos em seu E-reader as outras formas talvez sejam úteis.
Conteudo
Os textos das três cantatas .................................................................................................. 4
Circunstâncias e fundo histórico.......................................................................................... 5
Base e princípios das composições..................................................................................... 10
Os textos em comparação.................................................................................................. 14
Os poetas dos textos das cantatas...................................................................................... 20
As aberturas das cantatas................................................................................................... 25
BWV 12,1................................................................................................................................................................... 25
BWV 146,1................................................................................................................................................................. 27
(BWV 103,1)...................................................................................................................................................... (29)
O primeiro coro................................................................................................................. 30
BWV 103,1................................................................................................................................................................. 30
BWV 146,2................................................................................................................................................................. 34
BWV 12,2................................................................................................................................................................... 38
O sofrimento relatado nas primeiros recitativos
e árias...................................................... 42
BWV 12,3 Arioso:
Wir müssen durch viel Trübsal............................................................................................. 42
BWV 12,4 Aria: Kreuz und Kronen sind verbunden...................................................................................... 43
BWV 103,2 Rez.:
Wer sollte nicht in Klagen untergehn................................................................................. 45
BWV 103,3 Arie:
Kein Arzt ist außer dir zu finden......................................................................................... 46
BWV 146,3 Arie:
Ich will nach dem Himmel zu.................................................................................................. 47
BWV 146,4 Rez.: Ach! Wer doch schon im Himmel wär.............................................................................. 48
Consolo e conforto por Cristo............................................................................................. 50
BWV 12,4................................................................................................................................................................... 50
BWV 103,4 Rez.: Du
wirst mich nach der Angst auch wiederum erquicken................................................ 50
BWV 146,5 Arie:
Ich säe meine Zähren............................................................................................................... 51
BWV 146,6 Rez.: Ich bin bereit, mein Kreuz geduldig zu
ertragen............................................................ 52
Satisfação e alegria nos últimos
movimentos..................................................................... 55
BWV 12,5 Aria:
Ich folge Christo nach.................................................................................................................. 55
BWV 12,6 Aria: Sei getreu................................................................................................................................ 57
BWV 103,5 Arie: Erholet euch, betrübte Stimmen............................................................................................ 59
BWV 146,7
Arie: Wie will ich mich freuen......................................................................................................... 60
Os hinos finais................................................................................................................... 64
BWV 12,6 .................................................................................................................................................................. 64
BWV 103,6................................................................................................................................................................. 66
BWV 146,8................................................................................................................................................................. 67
Resumo e final................................................................................................................... 70
Apêndice com trechos das partituras.................................................................................. 78
Índice
de literatura............................................................................................................ 85
5
Circunstâncias e fundo
histórico
Para o domingo Jubilate,
o terceiro domingo após Páscoa, Johann Sebastian Bach compus três cantatas. Não
se sabe exatamente se foi ao pedido da liderança eclesiástica, mas se pode
dizer em geral que as igrejas nesta época esperavam sempre, que seus músicos
apresentassem ao lado de outras obras também obras próprias novas e atuais. Era
muito comum nas igrejas maiores e nas cortes dos príncipes, compor novas
músicas para cultos e eventos. O compositor sentiu-se nisso muito mais como um
artesão que fabrica móveis ou outras coisas úteis, e menos como artista no
sentido das épocas pós-barrocas, que espera pela intuição certa.
Para poder avaliar e
entender as composições da melhor maneira, procuraremos as circunstâncias,
investigaremos a influência delas à música, considerando o fundo histórico e a
situação pessoal do compositor.
Depois será possível
fazer uma análise comparativa. Quais serão os resultados e quais as conclusões
que eles implicam? Eu espero que não somente descubramos as diferenças e o que
é igual ou semelhante nessas três cantatas, mas que emanem desse trabalho
também novas conclusões gerais sobre Bach.
Quando um músico é
encarregado para fazer uma composição, tem que conhecer o tema, os requisitos e
as condições preliminares. Neste caso o tema é definido pelo fato, que o
domingo Jubilate tem como todos os domingos na igreja evangélica luterana um
determinado tema, que resulta das leituras do culto. As leituras foram
colecionadas já na época medieval pela igreja católica no evangeliário e lecionário e formam um ciclo
anual. Elas são chamadas perícopes e formam o Missale¹ romano, e Martinho Lutero e outros reformadores
luteranos aproveitaram-nas depois para as liturgias evangélicas.²
Com essa ordem de
leituras o tema do domingo é definido, porque era obrigação absoluta fazer a pregação
de domingos e dias festivos sobre um desses textos,³ se bem que os teólogos pietistas
da época opunham-se contra essa coibição.
Normalmente
pregava-se sobre o evangelho, como ainda hoje na igreja católica. Segundo o gráfico
1, publicado na próxima página, que é do início da década vinte do século XVIII,
o lugar da cantata era entre o evangelho e o sermão. Sendo ela o elo entre lllllllllllllllllllllllllllllllllllll
_______________________________________________________________________________
² Veja detalhes em
Gottrom: Handbuch der Liturik - Die Liturgischen Bücher
³ Leiturgia, Bd. III, S
292
6
os dois, é função dela
refletir e atualizar a mensagem, preparando o caminho para o sermão.¹
De vez em quando se acha
a opinião que a cantata nesta época era dividida em duas partes, emoldurando o
sermão. É verdade, que existem partituras com cantatas em duas partes, como a
Cantata 147 "Herz und Mund und Tat und Leben" (BWV 147), mas eu
duvido que isso fosse costume
geral, embora o alegue o prefácio da partitura de Eulenburg da Cantata 12,
entre outros.
Primeiramente temos um indício nessa noticia escrita à mão que mostra a
ordem de um culto de Leipzig, como já mencionada em cima:
Segundo:
O sermão era muito longo. Começava com um hino (aqui o credo cantado) e
constituiu-se de um praeambulum (exordium), que é um
breve discurso sobre uma frase, dica, pequeno trecho, provérbio ou adágio
escolhido, que às vezes ganhou dimensões de um sermão de hoje, e em seguida o
explicatio, applicatio e conclusio.¹ Supõe-se que as vezes foi cantado mais um
hino entre o exordium e a parte principal do sermão, e
dakvon
__________________________________________________________________
¹ ib. p. 288s e p.. 297
¹ A mesma função tem em
cultos tradicionais até hoje o hino entre evangelho e sermão, ou, quem sabe, um
pequeno teatro o filme no mesmo lugar. Também o próprio pregador pode começar
seu sermão com uma história atual, que revela a mesma mensagem do evangelho.
7
esse costume se
encontrava, segundo Friedrich Smend, também em Leipzig.¹ Em tudo o sermão
demorava pelo menos uma hora.
Dessa maneira a divisão
da cantata causaria uma interrupção muito grande no enredo da cantata
dificultando o entendimento do enredo inteiro, sobretudo porque neste intervalo
o pregador iria desenvolver temas diferentes. Em nossos dias impacientes
algumas pessoas não agüentam uma cantata de 15 a 30 minutos sem pausa, e
preferem uma interrupção por um sermão de uns 10 ou 20 minutos. Todavia, esse
aspecto é alheio à época barroca.
No prefácio da partitura
de Eulenburg acha-se a bela hipótese, que o pregador poderia ter terminado com
as palavras: “Por isso: Sigam a Jesus!”. Aí se seguiria a segunda parte da
cantata com razão. Porém, ao que nós sabemos sobre a prática da época, isso não
é muito provável. Justamente a obrigação categórica de pregar sobre o perícope,
em detalhe: sobre o evangelho, ano por ano, implicou que os pregadores
procuravam fazer discursos diferentes e variados, afastando-se mais e mais do
tema. Enquanto os pietistas se opunham contra essa obrigação coerciva,² os
ortodoxos tentavam variar de maneira sutil e rebuscada. Combinavam o texto
bíblico com anedotas e provérbios, que pelo gosto de hoje têm somente uma
ligação muito sutil e experta com o tema.³
Man muss also davon
________________________________________________________________
¹ Friedrich Smend, Joh. Seb. Bach Kirchenkantaten Vol. I,
p.9
² Em qual grau os
pietistas tinham a coragem de abandonar a obrigação pelos perícopes na prática
eclesiástica, não se sabe.
³ Justamente essa
esperteza e sutileza era considerada erudição. Um livro didático contém para o
domingo da Santíssima Trindade um sermão sobre o provérbio: "Alle guten
Dinge sind drei" (Todas as coisas boas são três), e uma moda comum era
fazer seqüências de prédicas sob certos aspectos. Havia pregadores falando um
ano inteiro sobre profissões, aproveitando Mat.6.24 (Ninguém pode servir a dois
patrões) para uma prédica sobre faniqueiros, ou as bodas de Canaã (Jo 2) para
um sermão com o tema: “Jesus, o bom exemplo para os taberneiros”.
Consta que tais modismos
existiam justamente também em Leipzig. J.B. Czarpow: Vorbilder und Fragepredigten
(Bons exemplos e sermãos feitos de perguntas), Leipzig 1701, e também
Neumeister ("Geistliches ABC", Hamburg 1722) publicaram trechos em
que se acham tais tendências. (veja tb. Leiturgia Vol. II p. 291 ss)
8
Temos que partir do
princípio, que o músico, assim como ainda hoje muitas vezes, não sabia para
onde o sermão levaria os ouvintes. Quem sabe, ele tinha, às vezes, até
conhecimento do fato de que o sermão não acertaria o cerne do tema. Já que a
cantata é orientada pelo evangelho e em nenhuma cantata achamos influências dos
fenômenos referidos em cima, podemos concluir que as cantatas eram feitas
independentes do sermão e eram mais fiéis ao evangelho. Esse proceder é mais um
argumento a favor da hipótese, que a cantata não era dividida pelo sermão.¹
Outros fatores
exteriores, eram para Bach o tipo e a qualidade dos instrumentos e a capacidade
dos músicos, e a qualidade do coral e dos solistas. Esses questões vão ser
tratados com mais detalhes nas respectivas cantatas. Todos esses fatores podiam
limitar o compositor, mas podiam também desafiar e inspira-lo. Em tudo devemos
sempre lembrarmo-nos que o compositor visava em primeiro lugar ao evento
especifico, para que ele compôs a cantata, e não pensou em criar uma obra
válida para todos os tempos.
Nisso se mostra também a
grandeza desse compositor, porque Bach escreveu neste sentido música para o uso
diário, e mesmo assim saíam obras de arte sublime, espirituais e inspiradas.
O tema do domingo
Jubilate era então conhecido: O discurso de despedida de Jesus João 16.16-23:
16 Über ein Kleines, dann werdet ihr mich nicht sehen; und
abermals über ein Kleines, dann werdet ihr mich sehen. 17 Da sprachen etliche
unter seinen Jüngern untereinander: Was ist das, was er sagt zu uns? Über ein
Kleines, dann werdet ihr mich nicht sehen; und abermals über ein Kleines, dann
werdet ihr mich sehen; und: Ich gehe zum Vater?
18 Da sprachen sie: Was ist das, was er sagt: über ein
Kleines ? Wir wissen nicht, was er redet. 19 Da merkte Jesus, dass sie ihn
fragen wollten und sprach zu ihnen: Darüber fragt ihr untereinander, dass ich
gesagt habe: über ein Kleines, dann werdet ihr mich nicht sehen, und
abermals über ein Kleines, dann werdet ihr mich sehen. 20 Wahrlich! wahrlich!
_____________________________________________________________________
¹ À mesma conclusão chegou o Sínodo litúrgico luterano
(Lutherische liturgische Konferenz) no livro „Die Kantaten J.S. Bachs im
Gottesdienst" (As cantatas de J.S.Bach no culto), Hänssler, 1985, p. 43. A cantata tinha seu lugar determinada entre o evangelho e o credo. Se a
cantata tem duas partes como BWV 147, a segunda parte era cantada durante a
Santa Ceia.
:
9
wahrlich! ich sage euch: Ihr werdet weinen und heulen! aber
die Welt wird sich freuen; ihr werdet traurig sein! doch eure Traurigkeit soll
in Freude verkehrt werden. 21 Ein Weib! wenn sie gebiert! so hat sie
Traurigkeit! denn ihre Stunde ist gekommen. Wenn sie aber das Kind geboren hat!
so denkt sie nicht mehr an die Angst um der Freude willen, dass ein Mensch zur
Welt geboren ist. 22 Und auch ihr habt nun Traurigkeit; aber ich will euch
wiedersehen und euer Herz soll sich freuen, und eure Freude soll niemand von
euch nehmen. 23 Und an demselben Tag werdet ihr mich nichts fragen.¹
Para esse trecho Bach
procurou então um texto, uma poesia, para poder compor as árias, ariosos e
coros. É também possível que, em alguns casos, um pastor, prefeito ou consistório
eclesiástico recomendou ou exigiu um certo texto, mas não temos notícias a
respeito disso. Uma vez escolhido o texto, Bach compôs a cantata, aplicando os
meios de sua época e os recursos disponíveis. Os meios e circunstâncias da
época serão tratados a seguir, porque Bach e a sua obra sublime são alicerçados
no desenvolvimento geral da música barroca. Sem esse desenvolvimento um auge
como a obra de Bach não seria imaginável nem entendível.
__________________________________________________________
¹ O trecho consta da
bíblia alemã de Martinho Lutero. Aqui segue-se uma tradução literal feito pelo
autor:
16 Sobre um pequeno
(espaço), então não me verão, e de novo sobre um pequeno, então me verão. 17 Ai
falaram vários de seus discípulos entre si: O que é que ele nos fala? Sobre um
pequeno (espaço), então não me verão, e de novo sobre um pequeno, então me
verão, e: Eu vou para o pai? 18 Aí falaram: O que é que ele fala: sobre um
pequeno? Não sabemos o que ele fala. 19 Aí Jesus reparou, que eles queriam
perguntar-lhe e lhes falou: Vós perguntais entre vós a respeito de que eu eu
falei: Sobre um pequeno (espaço), então não me verão, e de novo sobre um
pequeno, então me verão. 20 De verdade, de verdade, - Eu digo-lhes: Chorareis e uivareis, mas o mundo se
alegrará, e vós sereis tristes. Mas vossa tristeza será invertida em alegria.
21 Uma mulher, se dar à luz, é triste, pois chegou a hora dela. Porém, se já
deu a luz, aí não pensa mais no medo, por causa da alegria, que nasceu um homem
no mundo. 22 E também vós tendes agora tristeza, mas eu quero rever-vos e seu
coração se alegrará, e ninguém tirará a vossa alegria de vós. 23 E neste mesmo
dia vós nada perguntareis.
10
Base e princípios das composições
A música sacra como irmã
gêmea da prédica tinha na igreja evangélica luterana desde início um papel
muito importante, que começou já com o próprio Martinho Lutero. Lutero defende
a importância da música não somente em seus livros,¹ mas ele era também um
músico ativo, que cantou e tocou alaúde em casa com a família, e ele é também
compositor e arranjador de muitos hinos.² Muitos deles encontram-se até hoje
não somente nos hinários luteranos, mas também nos hinários e cancioneiros de
muitas outras igrejas, inclusive a igreja católica.³
A música tem assim seu
lugar definido na liturgia e também na evangelização como mensageira da palavra
de Deus. Com isso o compositor virava com o tempo e o desenvolvimento dos meios
de composição também interpretador do texto, relevando certas palavras, gerando
ligações entre certos trechos ou palavras e exprimindo alegria, sofrimento e
outros termos, que normalmente representam ou associam emoções. Ele consegue
isso com os meios da composição e reforça assim o significado de uma palavra ou
da mensagem, ou influencia-a em certa maneira.
Com o decorrer do tempo
desenvolveram-se afetos musicais, 4
“símbolos” ou “figuras”, que afiguram e exprimem certos acontecimentos gramáticos ou retóricos
com meios ........
____________________________________________________________
¹ Veja nisso entre
outros "Tischreden D. Mart. Luthers", Kap. LXIX, "Von der
Musica" (Discursos na mesa de Dr. Martinho Lutero, Cap. LXIX “Da música”):
por exemplo "Musica ist eine schöne herrliche Gabe Gottes und nahe der
Theologiae" (Música é uma dádiva de Deus bela é maravilhosa, perto da
teologia) e "Theologia,der Musica den nehesten Locum und höchste Ehre. Und man siehet, wie
David und alle Heilgen ire Gottselige gedancken in Verß, Reim, und Gesang
gebracht haben, Quia pacis tempore regnat Musica." (Teologia, que tem o lugar mais perto da música e altíssima honra. É a
gente vê, como Davi e todos os santos colocaram seu pensar religioso em versos,
rima e canto. Pois em tempo de paz reina a música.)
(Imprimido de Urban
Gaubisch, Eisleben, 1566, p.577 ff.)
Além disso existe pelo menos uma obra de Lutero para coral a várias vozes.
² Composições livres são
"Ein
feste Burg ist unser Gott"
(Castelo forte), "Jesaja
dem Propheten das geschah" e a
litania (Litanei) do ano 1528 (Kyrie eleison)
³ A igreja católica da
Alemanha tem no hinário oficial mais de dez hinos de Lutero.
4 Sobre afetos musicais veja também Gertrud
Mersiovsky: Coloquio: Definição de música e introdução á retórica musical na
interpretação dos prelúdios e fugas de Johann Sebastian Bach, Associação Carioca de organistas
.
11
musicais, com certas
seqüências de notas.¹ Com isso os compositores desenvolveram uma possibilidade
de traduzir palavras do alemão, latim, italiano etc. de uma ou outra maneira
para a língua das notas.
O compositor torna-se interprete
que explica o texto semelhante a um predicador. Essa interpretação do texto
acontece por meio desses afetos, símbolos e figuras, e não no sentido das
composições clássicas e românticas com afigurações de fenômenos naturais no
estilo da música programática, mas em ambos os casos
a língua musical consegue lançar a sua mensagem, que o ouvinte da época entendeu
na sua intenção e recebeu dela uma interpretação teológica, assim como ainda o
ouvinte de hoje, desde que ele é acostumado à música barroca.² A tradução de
textos para a música por meio de afetos e a identificação deles pelo músico,
que lê e toca a partitura, e depois pelo ouvinte é considerado na época barroca
um processo objetivo.
Um passo decisivo no
caminho do mero veículo para transportar textos bíblicos à exegese dele
observamos na obra de Bach já porque o próprio texto é interpretação e exegese.
Enquanto antes de Bach as músicas eram geralmente baseadas em textos bíblicos e litúrgicos, e nas igrejas
evangélicas também em hinos geralmente já conhecidos aos ouvintes, surgem agora
sob influência do pietismo textos religiosos em poesia livre, que, muitas vezes
encimados por um verso bíblico, são muito usados pelos compositores da segunda
parte do século XVII. Dessa maneira criam cantatas como "Das
neugeborne Kindelein" de Buxtehude, ou
também "Wie soll ich dich empfangen" , que
Buxtehude trata como um texto livre de Paul Gerhard, e "Lobet Christen euren Heiland"
("Lauda sion"), que Buxtehude trata também como uma poesia livre, sem
consideração da melodia tradicional.
_______________________________________________________________
¹ Sobre as figuras em geral veja, entre outros, Arnold
Schering: Bach und das Symbol. Bach-Jahrbuch 1928, p. 122 ss.
² Sobre as diferenças entre afetos barrocos e música
programática de séculos mais novos veja Schering, idem, p. 129 s.
Também Albert Schweitzer: Prefácio de "Auswahl
der besten Klavierwerke" (Coletânea das melhores obras para piano (de
Bach)), Ed. Wien 1929 (Editor H. Neumayr)
12
Antes
do barroco se acham mais músicas sobre o Ordinarium missae¹, e somente aos
poucos os compositores descobriram o Proprium. Isso foi o primeiro passo para
ter mais Exegese na música, já que o próprio Proprium, pelo fato que se tratar
de um texto específico do respectivo domingo ou dia festivo, é muito mais
exegético do que o Ordinarium. O uso de textos livres, geralmente exegéticos, para
as composições foi por enquanto o auge nesse desenvolvimento.
No
início do século XVIII encontramos uma forma própria de poesia religiosa, que
vira o enredo para as cantatas das igrejas. Muitas vezes essas poesias já são
feitas com o objetivo de serem usadas para cantatas eclesiásticas. A forma
resultou de várias tradições como o madrigal e a cantata italiana², que também
é constituída por árias e recitativos.
Importante
para o desenvolvimento do tipo de poesia, que Bach usava, era o teólogo Erdmann Neumeister, quem foi a partir do ano 1715 pastor da
igreja evangélica luterana São Tiago (Sankt Jacobi) em Hamburgo. Já em 1700
publicou um ciclo anuário de poesias religiosas. O título "Geistliche
Cantaten statt einer Kirchen-Musik" (Cantatas religiosas em lugar da
música sacra) sugere logo que esses textos fossem transformadas em cantatas.
__________________________________________________________________
¹ Ordinarium Missae: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus
(incluindo Benedictus) e Agnus Dei, as partes tradicionais da missa, que se
repetem todas as vezes literalmente. O contrário é o Proprium Missae, partes da
missa que trazem em cada dia ou cada domingo um tema diferente, como por
exemplo as leituras. Na época medieval o Proprium missae tinha como o
Ordinarium cinco partes: Introitus, Graduale, Alleluia, Offertorium, Communio.
Essas partes são mais exegéticas, porque interpretam
sob vários aspectos o tema do culto.
² A Cantata italiana de câmera ("Cantata")
desenvolveu-se principalmente na Escola Neapolitana (A.Scarlatti, Hasse, e
também Händel), na maioria das vezes com textos bucólicos ou divertidos. Ela
foi feita para círculos de pessoas eruditas, muitas vezes nobres, e deu espaço
também para experimentar inovações. No século XVIII ela se consolidou
estandardizado com duas ou três árias com da capo e recitativos.
De vez em quando encontramos na música sacra a
“cantata spiritual”, no mesmo estilo, mas com conteúdo religioso ou moral.
A cantata italiana foi usada dentro de óperas e
tornou-se conhecida assim também na Alemanha.
A „música principal“ do culto luterano, que hoje é
chamada „cantata“, desenvolveu-se no início independente disso, ao que sabemos.
Mas seguiu também mais e mais o gosto e a moda geral e parecia aos poucos as
árias e rezitativos da ópera. Mais tarde o nome cantata foi aplicado também na
música sacra.
13
Seu
livro didático "Die Allerneueste Art, zur Reinen und Galanten Poesie zu
gelangen" (A arte novíssima de chegar a rimas e uma poesia galante) contém
uma poesia com recitativos livres e árias com da-capo para cada domingo e cada
dia festivo.
Mais
tarde (1708 - 1714) Neumeister escreveu também textos, que adicionam a essa
forma elementos já conhecidos de tipos de cantatas mais antigas: Abertura com
um verso para o coro, sentenças da bíblia (veja BWV 24, Ein ungefärbt Gemüte) e uma estrofe de um hino,
preferidamente no final (veja BWV 61 Nun Komm der Heiden Heiland).
Ao
contrário de Neumeister em outros lugares o nome „cantata“ era ainda incomum
para aquelas composições do culto, que hoje são chamadas „cantatas“. Falava se
simplesmente de “Stück“ (pedaço, peça) ou Hauptmusik (música principal), e Bach
usa o termo Stück ou também Concerto¹, enquanto Telemann usa no Harmonischen Gottesdienst (culto harmonioso) já o termo
cantata.
Isso
era o fundo histórico, quando Bach começou a compor cantatas.²
Agora
quero chegar às cantatas do domingo Jubilate. Ponto de partida é o texto, já
que ele existe geralmente antes da música. Às vezes ele é até a causa ou a
inspiração para a composição de uma cantata. De qualquer maneira é o
fundamento, sobre o qual a cantata se erige.
_______________________________________________________
¹ Em casos raros ele usa a palavra „Cantata“, por
exemplo na cantata para solo de baixo „Ich will den Kreuzstab gerne tragen“ (BWV
56).
² Os tipos de cantatas mais corriqueiras eram cantatas
sobre textos bíblicos (normalmente livremente agrupados) ou sobre outros textos
tradicionais (como por exemplo Buxtehude: Cantate Domino sobre Salmo 96; também a
supostamente primeira cantata de Bach "Aus der Tiefe rufe ich“, BWV
131 segue ainda maioritariamente a essa tradição); além disso cantatas
sobre hinos (Choralkantaten), usando umas ou todas as estrofes de um hino e a
melodia (cantus
firmus) (Buxtehude: In
dulci jubilo; Jesu, meine Freude; Erhalt uns Herr, bei deinem Wort, entre
outros); também achamos esse tipo em cantatas de Kuhnau, o antecessor de Bach em Leipzig, e entre as primeiras
cantatas de Bach (Christ lag in Todesbanden“ BWV 4). Também existia
um tipo cantata-oda, parecido com a cantata-solo da Itália do século XVII, com
instrumentação que muda de estrofe em estrofe, e às vezes sem pausas entre as
estrofes. Acham-se também misturas dessa forma com uma frase da Bíblia e outras
miscigenações. (Veja o Actus Tragicus, BWV 106, de Bach).
A ária com da-capo e o recitativo não se encontram nas
cantatas sacras alemãs dessa época, o que se reflete nas cantatas de Bach dos
anos 1707,1708 (Mühlhausen).
14
Os textos em comparação
Base
da cantata é um texto, que geralmente existe já antes da música, (e isso foi
assim também nas três cantatas do domingo Jubilate, ao que se saiba).¹ Os
textos eram muitas vezes feitos pelos poetas contemporâneos justamente para o
uso em determinado domingo e podiam ser escolhidos pelos compositores.
Critérios para a escolha do compositor eram além da qualidade do texto amizades
entre compositores e poetas, costumes de trabalhar com determinado poeta ou
recomendações e exigências de terceiros. Seja como for, fato é que temos três
textos que não são de Bach, mas de um poeta, embora que seja possível que Bach
fez certas mudanças no texto.²
Se
comparar os três textos, revelam-se facilmente certas semelhanças:
Já na primeira vista se reparam semelhanças na
quantidade e proporção do texto; eles tem seis partes ou, contando na cantata
BWV 146 o hino final, sete.¹ Cada cantata contém um verso bíblico do domingo
Jubilate. As cantatas 103 e 146 começam com essa citação, enquanto a BWV 12, a
mais antiga dessas cantatas, apresenta-a no segundo lugar.
__________________________________________________________
¹ Exceções são cantatas que são paródias de
composições anteriores. Nesses casos o poeta conhecia a cantata originária e
concebeu o texto para a música; Dessa maneira a nova versão tem a mesma
quantidade de sílabas como o original, mas pode ter ainda muito mais semelhanças,
se o texto é bem adaptado à música.
Outras exceções são cantatas com textos que o próprio
compositor tirou e adaptou da Bíblia e de outras fontes, entre eles cantatas
sobre hinos de hinários, e obras dos primeiros anos de Bach, quando ele era
organista em Mühlhausen, e mudanças em outras cantatas como na cantata “Herz
und Mund und Tat und Leben” (BWV 147).
² Compare, por exemplo, a Cantata 103,4 com o
original:
Ich traue dem Verheißungswort,
dass meine Traurigkeit
und dies vielleicht in kurzer Zeit
nach bäng- und ängstlichen Gebärden
in Freude soll verkehret werden.
Além disso os hinos
finais deveriam ter sido escolhidos por Bach, como era comum.
15
A
cantata 103 tira a frase "Ihr werdet weinen und heulen..."(Vós
chorareis e uivareis..) do verso 20 do evangelho do dia (João 16.16-23), as
outras duas citam Atos 14, 22 "Wir müssen durch viel Trübsal in das Reich
Gottes eingehen." (Teremos que ir para o reino de Deus passando por muita
miséria.) São palavras que o poeta do texto da cantata escolheu e incluiu no
enredo. É o ligamento com o lema bíblico do domingo, que está atrás de todas as
leituras e deveria ser explanado no sermão e no culto inteiro. É o caminho pela
vida, que leva pelo vale terreal cheio de tristeza e mágoas
"Jammertal" onde os seres humanos passam por sofrimentos. O consolo
vem em forma de Jesus, que é o conforto na miséria é o amparo contra todo o mal,
ou pelo menos, na avaliação mais cética a respeito da ajuda prática esperada
por Jesus, a garantia para uma vida melhor depois da morte. As três cantatas
concordam completamente no que a vida na terra é difícil. BWV 12 escreve
claramente, que a vida dos cristãos é composta de “Trübsal, Weinen, Klagen,
Sorgen, Zagen, Angst und Not” (Chorar, queixar, preocupar, titubear, medo e
miséria). A BWV 103 mostra depois do começo com João 16.20 para a dor exemplar
que se sente, se o amado (Jesus) é levado embora, como o evangelho o prediz.
_____________________________________________________________
¹ Do hino final conhecemos só a melodia. O texto como
consta de Neumann: Sämtliche von J.S. Bach vertonten Texte (Todos os textos
musicados por J.S.Bach), (Neumann, Werner, Leipzig, 1974)::
Ach, ich habe schon erblicket
diese große Herrlichkeit,
jetzo werd ich schön geschmücket
mit dem weißen Himmelskleid,
mit der güldnen Ehrenkron'
steh ich da vor Gottes Thron'
schaue solche Freude an,
die kein Ende nehmen kann.
(Ai, já vi
Essa grande
sublimidade,
Agora serei bem
enfeitado
Com o vestido
branco celestial,
Com a coroa áurea
de honras
Fico em pé diante
do trono de Deus,
Olho tal alegria
Que nunca pode
terminar.)
.
Na Edição da cantata de Peters se acha: Lob und Dank
sei Dir gesungen, Vater der Barmherzigkeit (Glória e louvor seja te cantado, ó
Pai da misericórdia)(2ª estrofe do hino "Werde munter, mein Gemüte) Wustmann propõe a
nona estrofe do hino "Lasset ab von euren Tränen" de Gregorius
Richter: Denn wer selig dahin fähret. (Pois quem parte bem-aventurado) (Veja p.
69 e Dürr p.268)
16
Por
causa da palavra "Liebster" (amado) associa-se a comparação com a dor
sentida, quando um cônjuge amado é afastado de alguém. O tempo do medo é aqui
especificamente o tempo do afastamento de Deus, quando ele fica longe, como o
verso 16 do evangelho refere. Mas por causa da certeza que tenho, que Jesus
voltará, quero me consolar e regozijar, e o tempo no sentido de duração da
ausência aparece no hino final como um nada, um “Augenblick” (piscar dos
olhos). Embora a volta para os sentimentos positivos seja uma consideração
meramente escatológica, o pregozo me consola já agora tanto, que os
"betrübten Sinnen" (sentimentos soturnos) se podem recuperar e a
tristeza poderia terminar.
O
texto deixa aberto, se a distância de Deus se refere somente ao sentido
histórico-escatológico ou também ao afastamento por causa dos pecados e de uma
vida sem Deus.
A
cantata BWV 146 alega, que seria impossível viver em paz no mundo, aqui apelido
como "schnödes Sodom" (Sodom vil), sobretudo porque os contemporâneos
me perseguem, me odeiam sem razão ou culpa e se alegram e apascentam muito no
meu sofrimento. A única cantata que fala de meus próprios pecados como causa
dos feridos é a BWV 103. Ao contrário de BWV 146 ela mostra que eu mesmo sou a
causa do sofrimento.
As
cantatas também diferem na esposição da maneira, como e onde se espera a
amenização da situação. "Kreuz und Kronen sind verbunden" (Cruz e
coroa são ligadas), conta a cantata 12. Estar na sucessão de Jesus significa
sempre, que se tem que arcar sofrimentos, porque Jesus ando na terra também no
caminho da cruz. A reflexão nas chagas de Jesus é o verdadeiro consolo, e além
disso o sofrimento é só breve, e „depois da chuva floresce a bênção”
("nach dem Regen blüht der Segen"). Assim eu sigo a Jesus, seja no
bem, seja no mal. Continuo fiel também em tempos ruins e sei no hino final, que
sempre „o que Deus fez é bom” ("Was Gott tut, das ist wohl getan").
Assim
a cantata termina com a conclusão, que o cristão, mesmo quando sofre, está
seguindo a Jesus e com isso no caminho certo.
A
expectativa na cantata 103. no entanto, é muito mais para o futuro, para a vida
além, como já foi explanado. O refrigério vem somente depois do tempo de
sofrimento, porque o mundo não tem “balsamo” e está longe de Deus. Porém, na
última ária a alegria também torna-se presente, atual e real, e no hino final
(do poeta Paul Gerhardt) se fala do sofrimento já no perfeito, como se fosse
algo do passado.
17
A
cantata BWV 146 de sua vez mostra-nos, que verdadeira alegria me espera somente
depois da morte. O estágio aqui na terra é tão terrível, que mesmo a conciencia
da glória no dia da „colheita bem-aventurada“ ou „colheita beata“ ("der
seligen Ernte") é um consolo insuficiente para me fazer realmente alegre.
Porém, ele me dá a paciência, e assim eu sou prestes para carregar a minha
cruz, na expectativa da recompensa na futura glória. Por isso a cantata entra
com a última breve ária a um pregozo dos prazeres vindouros.
Desta
maneira todas as cantatas partem de profunda depressão e chegam até um consolo
e alegria, mas com diferenças a respeito da intensidade. Em um gráfico
ficaria mais ou menos assim:
18
A
idéia original deste gráfico era que o final da cantata 146 não exprime alegria
presente e entusiástica, mas somente um consolo e pregozo em relação a um
futuro melhor depois da morte. Em discussões com outros músicos se mostrou,
porém, que a maioria associa o texto dessa estrofe como grande alegria.
Todas
as três cantatas começam com um coro. O coro das cantatas BWV 103 e 146 é
baseado no verso bíblico da cantata, enquanto a BWV 12 apresenta uma poesia
livre. Seguem-se árias e recitativos, em correspondência com o gosto e costume
dessa época. Na cantata 12 não se encontram recitativos, mas depois do coro
inicial um arioso com o texto do verso bíblico, formando a segunda estrofe da
cantata (compare p. 22). A cantata 103 traz a seqüência regular recitativo –
ária - recitativo – ária, enquanto a terceira cantata (BWV 146) começa depois
do coro inicial com uma ária, depois seguem-se como na BWV 103 recitativo –
ária - recitativo – ária.
Essa
ordem da cantata 146 apresenta uma simetria. A simetria fica ainda mais forte,
se considerar o tamanho dos movimentos. No centro da cantata se encontra uma
ária de cinco versos, com um verso cego. Antes e depois dela acham-se os dois
recitativos longos de 14 e 17 versos respectivamente. É possível, que Bach cortou
versos. Também tem uma analogia entre a primeira ária e a última em relação à
quantidade e o esquema das rimas, com exceção que na primeira ária falta o par
do primeiro verso, que deveria terminar com uma rima como „haben“(ter, haver)
ou „Knaben“ (meninos). Um verso cego justamente nesse lugar parece estranho do
lado do poeta; parece sem justificativa e destrói a analogia com a última ária.
Por isso suponho uma mudança feita por Bach. (A última ária é constituída como
a primeira com quatro sílabas fortes por verso, porém está escrito no ritmo
dactílico¹).
___________________________________________________________
¹ Ritmo com uma sílaba forte em cada três sílabas,
correspondendo desta maneira ao tempo a 3 ou 6 ou 9 na música.
19
Partindo
da cantata 12, passando a 103 e terminando com a 146 chegamos mais e mais do
“nós” geral até o “eu” íntimo e pessoal. Se bem que também na cantata 12 se
ache o “eu”, como era comum na poesia e no hinos sacros do século XVII, ao
contrário do “nós” preferido da época da reforma,¹ mas o “eu” poderia sem perda
de conteúdo ser substituído pelo “nós”.
Até
na cantata 103 o “nós” seria imaginável, embora que a terceira estrofe
expressiva e pessimista certamente não pode corresponder ao pensamento de cada
um, e desta maneira o “nós” não incluiria a todos os cristãos.
Tanto
mais isso vale para a cantata 146 com sua saudade da morte, que certamente não
exprime a opinião de todos. Aqui temos os sentimentos de uma determinada pessoa
em uma situação específica.
A
comparação dos textos aconteceu de propósito sem consideração do fundo
histórico e da biografia dos poetas. Um ouvinte das cantatas em um culto também
não vai ter muitas informações a respeito, mas a palavra atua pela força
própria dela. Mas o conhecimento desse fundo pode facilitar o entendimento, e
por isso o próximo capítulo é dedicado aos poetas das três cantatas.
___________________________________________________
¹ Veja hinos de Lutero (Ein feste Burg ist unser Gott - Castelo
forte, Hinário luterano 165, Jesus Christus, unser Heiland – Senhor
Jesus, nosso Salvador, Wir glauben all an einen Gott – Nós cremos todos
em um só Deus, Hinário luterano 233) e de outros poetas do século XVI (Wir
Christenleut – Nós cristãos, Wir danken dir, Herr Jesu Christ – Nós te
agradecemos, ó Jesus Cristo, entre outros) Se aqui aparece a palavra „eu“,
muitas vezes a razão esta fora da poesia (por exemplo, citações em hinos
baseados em salmos), e muitas vezes o “eu” fica sinedocalmente em lugar do “nós”.
(Veja também o hino de Lutero "Aus tiefer Not schrei ich zu Dir"- Das
profundezas clamo a Ti, Hinário luterano 349 -, no qual na quinta estrofe surge
o “nós” em lugar do “eu”.)
No século posterior se escreve "mein Gott, mein
Hort" (meu Deus, meu refúgio) ou "mein Heiland" (meu Salvador)
ou " ich weiß woran ich glaube"(eu sei, em que eu creio). O „nós“
torna-se cada vez mais raro, e durante o pietismo domina a fé individual e
pessoal ainda mais do que na época da ortodoxia luterana.
20
Os poetas das três cantatas.
Na
época de Bach tornou-se quase uma moda poetas escreverem e publicarem também
textos para cantatas sacras. Por isso não todos essas poesias emanaram de
corações profundamente religiosas, embora a rica linguagem barroca, para os
contemporâneos de hoje, parece tão empolgada, devota e extasiada. Bem conhecida
é, por exemplo, a vida do poeta Picander (Christian Friedrich Henrici), que
antes de escrever textos para cantatas sacras era famoso por seus escritos
lascivos.¹
Mas
entre as três cantatas somente da BWV 103 "Ihr werdet weinen und
heulen" sabemos com certeza quem a concebeu. É a poetisa Mariane von Ziegler. Ela nasceu em Leipzig, capital do estado
Saxônia, no ano 1695 e se chamou antes de se casar Christiane Mariane Romanus.
A família dela era da alta burguesia. O pai era „Appellationsrat“ (Conselheiro
para apelações; equivalente a um desembargador ou juiz alto) e mais tarde
prefeito de Leipzig. Logo com 16 anos ela casou com Heinrich Levin von Könitz,
que no entanto morreu pouco depois. Quatro anos depois (1715) ela casou com o
capitão do exército Georg Friedrich von Ziegler, que também morreu logo. Em
1722 ela está de volta na casa de seus pais, onde ela começa a dedicar se às
artes. Além de fazer poesias ela toca clavicórdio, alaúde e flauta traversa.
Artistas nacionais e internacionais frequentam a sua casa.
__________________________________________________________
¹Veja seu volume de
poesia: "Des Jungfräuleins Pflichten“ (Os deveres da virgenzita) 1908.
"...dass der Herr nicht hungrig ins Bette geht,
das Mägdlein artig vor ihm steht.
Legt um seinen Leib ihre weißen Schenkel
und legt das Händchen fein auf seinen großen Senkel
stößt er sie hart, stößt er sie sachte,
des Glückes Füllhorn er ihr brachte;
So scheint das Mägdlein ganz vergnügt
und spricht: So hat's sich recht gefügt...“
Para que o senhor
não vá pra cama com fome
A empregadinha fica
obediente na frente dele.
Coloca ao redor do
seu corpo as coxas brancas
E coloca a mão finamente
no pau grande dele;
Ele ataca-a duro,
ele ataca-a suave,
A plenitude da
felicidade ele lhe trouxe.
Assim a
empregadinha parece bem alegre
E fala: assim caiu
bem...
²Veja Dürr: Die Kantaten von J.S. Bach, p. 48 ss
21
Em
1723 ou 1724 Johann Christoph Gottsched¹ vem para Leipzig. Ele está
desenvolvendo regras fixas para a poesia, como antes Neumeister, no entanto
muito mais sob influência da época do esclarecimento, iluminismo e da razão.
Depois de alguns anos de docente particular ele vira em 1730 na faculdade
professor de poesia e em 1743 de lógica e metafísica.
O
encontro com esse poeta, que era filho de um pastor da Prússia oriental e mal
chegando começou a combater nas suas escritas as lascívias de Picander, o que
levou a este a escrever também poesias sacras, inspirou a moça aparentemente:
Ela publica várias obras.
Bach
começou a trabalhar com textos dela no fim do segundo ano em Leipzig,
1724/1725, então na época do chamado “Kantatenjahrgang II” (Segundo ciclo
anuário de cantatas). Desde o primeiro domingo após a festa da trindade
(segundo domingo apos Pentecostes) em 1724 até a páscoa de 1725 Bach escrevera
somente cantatas baseadas em hinos (como Louva ao senhor potentíssimo BWV 137),
depois ele não completou o ciclo, mas se dedicou depois de alguns outros
enredos para cantatas ao livreto "Versuch in Gebundener Schreib-Art"
(Tentativa na maneira de escrever ligadamente) deMariane von Ziegler,
produzindo nove cantatas consecutivas. O primeiro fruto dessa cooperação única,
que nunca mais se repetiu nos anos seguidos, era a cantata do domingo Jubilate,
três semanas após a Páscoa.
________________________________________________________
¹ Gottsched, 1700 - 1766, é considerado um precursor e pioneiro
do Iluminismo, e junto com Karoline Neuber (Friederike Caroline Neuber ou Neuberin) também um pioneiro do teatro alemão, seguindo o
drama francês do classicismo. Sua obra principal a respeito do Iluminismo é a
"Kritische Dichtkunst“ (Arte crítica da poesia).
Segundo Dürr (p.64) chegou para Leipzig em 1724, enquanto Walter Blankenburg defende o ano 1723. (Veja seu artigo „Aufklärungsauslegung der Bibel in Leipzig zur Zeit Bachs“ (Interpretação esclarecida da Bíblia em Leipzig na
época de Bach). A respeito da homilética de Johann Christoph Gottsched veja página 97. O artigo se encontra em Martin Petzoldt: Bach als Ausleger der Bibel (Bach como intérprete da Bíblia), Göttingen 1985). Blankenburg, no entanto, julga que os contatos do poeta, que
tinha estudado teologia e depois filosofia, matemática e ciências naturais em Königsberg, a capital da Prússia oriental, eram meramente esporádicos.
Realmente achamos só um texto completamente de Gottsched nas cantatas de Bach (Cantata BWV 198 “Laß, o Fürstin, laß noch einen Strahl”), uma cantata secular, não sacra, em homenagem à princesa.
22
O poeta da cantata
BWV 146 é desconhecido, e para a BWV 12 podemos presumir com certa
probabilidade o poeta Salomon
Franck. Franck era o poeta mais reputado da corte em
Weimar, Saxônia-Weimar, onde ele atuou a partir de 1694 ou pouco depois. A
partir de 1710 ele usa uma nova forma transitória, que deixa a ver a influência
de Neumeister, mas ao contrario dele contém sempre um verso bíblico e não possui
recitativos livres. Muito tipicamente aparece essa forma nas primeiras três
cantatas conhecidas¹ do ciclo anuário de cantatas de 1714: BWV
182 (Himmelskönig, sei willkommen), BWV 12 e BWV 172 (Erschallet, ihr Lieder), que todos se
constituem de coro inicial livre, citação da Bíblia em forma de recitativo ou
arioso, três árias e hino final do hinário luterano.² Em todas as três cantatas
constam colocações típicas para Franck, palavras que ele usa com preferência.
Isso se mostra com expressões como o título de uma cantata „Herz und Mund und
Tat und Leben“ (Coração e boca e ação e vida) e o trecho „in Wohl und Weh, in
Freud und Leid“ (no gostoso e no doloroso, na alegria e no sofrimento – a
beleza das palavras e a aliteração se perdem infelizmente com a tradução) da
mesma cantata; mais „Bereitet die Wege, bereitet die Bahn“ (Preparem os
caminhos, preparem o trilho) ou „Mein Gott, wie lang, ach lange“ (Meu Deus,
quão longo, ai longo) junto com o verso „Du musst glauben, du musst hoffen“,
(Tu deves crer, tu deves esperar) e também BWV 162 com as linhas „Wohl und Wehe. Seelengift und
Lebensbrot, Himmel, Hölle, Leben, Tod, Himmelsglanz und Höllenflammen Sind
beisammen“ (Gostoso e doloroso, veneno das almas e pão celestino, céu, inferno,
vida, morte, brilho celestial e chamas infernais), BWV
163 com „Geist, Seele, Leib und Leben“ (Espírito, alma, corpo e vida) e BWV
168 com „Geist, Leben, Mut und Blut“ (Espírito, vida,couragem e sangue).
Reparam-se nisso rima internas e aliterações e uma maneira característica de agrupar dois
pares a um conjunto de quatro.
Se ler as poesias
publicadas de Franck, (que naturalmente não todos foram musicadas,)
revelam-se mais caraterísticas comuns, que se encontram também na cantata BWV
12. Por exemplo, se acha na coletânea „Evangelische Seelenlust“ (gozo da alma
evangélica), 1716, p.29 (Auff den 5ten Sonntag nach Trinitatis/ Para o quinto
domingo depois da festa da trindade): „Ich folge Jesu nach! Ich will mich
selber hassen!...“ (Eu sigo a Jesus, eu quero odiar-me a mim mesmo, o que
lembra BWV 12,5.³
________________________________________________________
¹ Stephen Daw alega,
contrariando Dürr (p.369), que já no domingo Oculi, o terceiro domingo da época
do Quaresma, foi apresentada a
BWV 54 (Widerstehe doch der Sünde) do poeta Lehms. („Bach: The Choral Works“,
p. 45 ff)
² Mais tarde Franck
escreve BWV 152 (no final de 1714) e depois outras cantatas seguindo o exemplo
de Neumeister concebendo cantatas sem verso bíblico nem coro, às vezes até sem
hino final. (Estes continuaram, alias, também depois da musicalização por Bach
sem hino final.)
³ Veja, entre
outros: Bach-Jahrbuch 1918 (Livro anuário da Associação Johann Sebastian Bach
da Alemanha), p. 12 f: Artigo de Ferdinand Zander: Die Dichter der
Kantatentexte J.S.Bachs (Os poetas dos textos das cantatas de J.S.Bach).
23
Considerando tudo
isso podemos supor que Franck é o autor do texto.¹ Se não foi ele, era alguém
que copiou bem o estilo dele, porque as 182, 12 e 172 apresentam as mesmas
caraterísticas estilísticas.
Franck, que estudara
jura (direito) e teologia, vivia entre 1659 até 1725 em Weimar, com exceção dos
anos da faculdade e dos primeiros anos de trabalho. Seus textos de cantatas
destacam-se não somente pela profundidade espiritual, intelectual e teológica,
mas também por belos ilustrações e sentimentos.²
É evidente e
conhecido, que Franck gostou das poesias da antiguidade. O poeta, que teve
entre seus contemporâneos a reputação de erudito, deixou muitas alusões diretos
a poesias da antiguidade e outras épocas em suas obras. Já o título da cantata
reporta a uma poesia italiana (veja página 38, em baixo) e também ao antigo e
nessa época conhecido hexâmetro „Flentes,
plorantes, lacrimantes, obtestantes" de Quinto Ênio (Quintus Ennius), (239
- 169), o pai do hexâmetro latino.³
Essa cantata estreou
no primeiro ciclo anuário de Weimar, no domingo Jubilate (22.4.1714).
Exatamente 11 anos depois, no dia 22.4.1725, estreou a cantata 103, enquanto a
cantata 146 foi apresentada provavelmente4 entre 1726 e 1728. Segundo o costume da
época as cantatas foram compostas geralmente pouco tempo antes do estreio. Por isso,
conhecendo a data do estreio, sabemos também o ano em qual foram
compostas.
________________________________________________________________
¹ Veja Alfred Dürr:
Studien über die frühen Kantaten J.S. Bachs (Estudos sobre as primeiras
cantatas de Bach), p. 85
² Por isso o poeta e esteta de música Gerardo
Montevila escreve: Tal corno a chuva fecunda a terra, tal corno a beleza da
natureza ou uma formosa garota fecundam a vida, o poeta Salomon Franck fecundou
o cornpositor Bach.
(Citado de: J.S. Bach, o grande cornpositor
alernao, Folheto da Cantata festiva da Pascoa, Coral evangélico de Belo
Horizonte, 20.3.75, Belo Horizonte, p.4)
³ veja Philip Ambrose: „"Weinen,
Klagen, Sorgen, Zagen" und die antike Redekunst“ (Cantata „Weinen, Klagen,
Sorgen, Zagen“ e a oratória) em Bach-Jahrbuch p. 37f. Ambrose alega que a
rara palavra obtestare, que nem consta do dicionário de latim de Langenscheidt,
pode ser traduzida livremente com „Zagen“, para conseguir a rima. Ele escreveu
também, que a "Ad Herennium" de Ennius era uma obra a que Franck
tinha acesso.
4 Hipótese de Dürr, veja „Die Kantaten von J.S. Bach“, p. 269
24
No ano 1714 Bach
trabalhava em Weimar. Depois de avançar para o posto do spalla do duque reinante Wilhelm Ernst, no dia 2 do março, teve o dever de escrever
uma cantata por mês. Isso não era muito para um compositor nesta época, e com
isso Bach teve o devido tempo e a tranqüilidade criativa para elaborar suas
obras.¹
Bach teve 29 anos e
acabou de virar pela quinta vez pai, mas duas das crianças, os gêmeos, já eram
mortos. Com certeza era então muito mais maduro do que um compositor de 29 anos
em nosso século.²
Embora a cantata 12
faz ainda parte das primícias de Bach, podemos certamente esperar uma
composição bem concebida.
Em 1724, o ano da
cantata 103, Bach chegou ao fim de um período de dois anos, em que ele desde o
começo do novo trabalho em Leipzig escrevia mais de 60 cantatas por ano. O
trabalho lhe saía em qualidade sublime, embora tinha muito pouco tempo por
cantata.
A cantata 146 se
criou em uma época em que Bach só escreveu ainda poucas cantatas. Ao que parece
usou cantatas suas dos anos anteriores ou de outros compositores para as
apresentações com o seu coral, o coral São Tomé de Leipzig (Thomanerchor Leipzig). Foi a época em que surgiram as primeiras
querelas infelizes, que iam amargando a vida do maestro.
_____________________________________________________
¹ Veja Malcolm Boyd: J.S. Bach, p. 63, Stuttgart, 1984
² Ainda hoje se repara que crianças se tornam maduras mais rápido, se
passam por dificuldades. Entre os muitos exemplos para confirmá-lo se encontra
o poeta adolescente Josimar Batista de Andrade. (Veja o artigo "Eu
acredito em mim" na revista
"Veja", dia 22 de junho 1994, Sao Paulo, Brasil, p. 6:
“Josimar Batista de Andrade, de 13 anos, é um poeta. Se os seus versos
são bons, talvez não caiba aos críticos literários avaliar. Seus poemas são
simples, repletos de sentimentos ternos e das paixões lancinantes que costumam
acometer os garotos de qualquer lugar no planeta. O lugar de Josimar no mundo é
o morro da Caixa D’Água, no Complexo do Alemão, um grupamento de favelas com
cerca de 80 mil moradores que cruza três bairros da Zona Norte do Rio de
Janeiro. Seu quarto é um cubículo abafado numa casinha de alvenaria
desconjuntada, com vista para becos estreitos e criações de porcos. Na
geopolítica determinada pelo tráfico de drogas no Rio, o morro da Caixa D’Água
é dominado por Orlando da Conceição, o “Orlando Jogador”. Ou melhor: Orlando
Jogador dominou o morro em que Josimar vivia até a semana passada, quando foi
assassinado na guerra de quadrilhas que já fez treze vítimas na região. Por
viver nesse ambiente de bandidagem, o poeta Josimar também faz versos como “O
que escuto, é muito assustador. É gente matando gente. Que tristeza! Que
horror!” Que tristeza, que horror que esse seja o cenário da infância de
Josimar e de milhares de outros meninos e meninas do Brasil. Essas crianças, no
entanto, não lamentam a vida que levam. Todas as que foram ouvidas para esta
entrevista já vivenciaram um tiroteio, viram amigos, parentes ou conhecidos
serem assassinados e enfrentam dificuldades materiais básicas. Mas todas elas mantêm
uma incrível capacidade de florir a dureza do dia-a-dia.”)
25
Os primeiros movimentos das cantatas
A cantata BWV 12
começa com uma sinfonia, a BWV 146 começa com um primeiro movimento de um
concerto, e a cantata 103 apresenta logo um coro bem desenvolvido. Todas
as três cantatas usam tonalidades menores, exprimindo a tristeza contínua, que
corresponde com a análise dos textos
Essa expressão é a
mais intensiva no adagio assai lentíssimo em Fá menor na cantata 12. Acima das
cordas o oboé levanta uma melodia melancólica em fá-menor, crivada de
diminuições com fusas. Começando com a quinta de fá-menor sobe através de
uma diminuição por
uma terça maior, o mi, transformando o acorde sol-menor das cordas em
dominante. A impressão fica ainda mais forte pelo fato que as fusas da
diminuição correm bem além do alvo, alcançando temporariamente o lá bemol
e chegando através de uma quarta diminuta para o mi. Esse saltus
duriusculus¹ gera junto com a parrhesia formada pelo trítono entre oboé e primeiros
violinos uma tensão forte de uma alma agitada por dores profundas. Na mesma
maneira continua todo o movimento, saltos duros, ainda por cima em tempos
fortes do compasso, interrupções súbitas (ellipse segundo Bartel, p. 154) nos compassos 3 e 6,
o movimento direcionado para baixo (katabasis) sobretudo a partir
do compasso 6, do qual o efeito é ainda mais forte pelas alterações para baixo.
O auge é a descida antes da metade, em notas ligadas a duas e duas, chegando a
um acorde diminuto, em compasso 7.
Os violinos se
movimentam em fusas, que, embora que parcialmente subam, são facilmente
reconhecidas como suspiros.²
___________________________________________________
¹ saltus
duriusculus, (em alemão:"böser“, harter Sprung, português: salto vil e
duro) pode ser para cima ou para baixo.
² Compare, entre
outros, o motivo da dor no hino "0 Lamm Gottes" para órgão
(Edição Peters, volume V), que Albert Schweitzer ("J.S.Bach, p.
458, Die musikalische Sprache der Choräle – A linguagem musical dos hinos)
define como "edle Klage" (lamento nobre); também o coro
inicial da Paixão de S. João, a ária do soprano
da ode funeral "Laß,
Fürstin, laß noch einen Strahl" (terceiro
movimento), "0 Mensch, bewein
dein Sünde groß" da Paixão de S. Mateus, que conhece
outrossim suspiros em movimento para cima; Schweizer e outros contam essa
sinfonia entre os exemplos da “dor nobre” ("edler Schmerz" ( p
. 498).
26
O efeito fica muito
forte pelo fato que os segundos violinos andam em paralelas, na maioria em
terças. Em baixo deles encontram-se as violas, divididas em primeiras e
segundas violas, segundo o costume no início do século XVIII.¹ Elas tocam
colcheias, então por sua vez o dobro do tempo dos violinos, sem pausas e em
homofonia, da maneira de que sempre duas colcheias são idênticas e ligadas.
Isso exprime sentimentos dolorosos mas em conjunto com uma certa sublimidade,
bem parecido com o magnífico Arioso
"Am Abend, da es kühle war" da paixão de
Mateus. Na cantata 105 "Herr, gehe nicht ins Gericht" colcheias semelhantes
significam o "angstvolle Beben" (palpitar medroso), (Schweizer, p
.570) .
O baixo marca em
semínimas, alternando entre sempre uma nota e uma pausa, no total de 27 pausas.
Bach é conhecido por usar números como símbolos, e por isso é possível que o
número é escolhido de propósito, para dessa forma o Deus triuno estar presente
nessa música. Até na maior miséria Deus está presente, mesmo que invisível e
por isso não pelas notas, mas pelas pausas. Bach fazia as vezes de tudo para
chegar ao número 27, como mostra entre outros a Missa em Si-menor. (Sua vida se
cumpriu neste sentido, quando ele morreu depois de 27 anos como maestro em
Leipzig.)²
O segundo auge da
música, no antepenúltimo compasso, é muito ousado. Quase todas as vozes
alcançam o acorde da dominante diminuta por saltos; o mais duro é a nona menor
da oboé, uma exclamatio de terror,
que continua por causa da fermata, que nessa época provavelmente foi
aproveitada para uma cadenza. Um compasso antes
Bach prepara esse salto duro por um salto parecido, mas aqui ele é um trítono. Para ter um efeito
mais forte do que aquele causado por um trítono Bach lança mão de uma nona
menor.
_____________________________________________________________
¹ Veja as cantatas 182 e 172. Aqui a palavra "divididas" nem é
muito exata, já que não se dividem as violas presentes como por exemplo no
início do Réquiem Alemão de Brahms, mas se deve dobrar o número de violas
presentes nesta obra.
² Veja Tadeusz Ochlewski: Lustro Liczb, Warschau, 1968, p. 101:
„Jest moze dlatego nie tylko przypadkiem, ze on wszedl do królestwa
Bozego dokladnie po 27 lat swojej swietej pracy. Czaszami wiedzemi dzwiwieni,
ze wiatr wieje tam, gdzie chce, i tylko slyszymi jego szum." (Não é
somente uma coincidência casual, que ele partiu para o reino de Deus exatamente
depois de 27 anos de sua atuação. As vezes sentimos admirando, que o vento anda
por onde quer, e ouvimos só o seu barulho.)
27
Com essa abertura
intensa e dolorosa Bach prepara o caminho para o texto a seguir, que na análise
dos textos foi considerado o mais triste e desolado de todos nessas três
cantatas.
A abertura da
Cantata 146 não é crivado de tanto desespero. Já o tom Ré menor representa um
espírito guerreiro, o que é bem mais positivo do que o Fá-menor no primeiro
movimento da Cantata 12. „Wir müssen durch viel Trübsal in das Reich Gottes
eingehen" (Nós temos que ir para o reino de Deus passando muita miséria).
Isso é o começo e a mensagem da cantata, expressa neste verso bíblico e também
nos textos livres e na música. Essa fala também claramente na introdução. A
mensagem do tom Ré menor, desde o início ligado com o antigo dórico, belicoso e
apolínico reporta em primeiro lugar à decisão impertinente de deixar tudo para
atrás e seguir para o céu com toda a força, e em segundo lugar ao desafio
lançado pela segunda palavra da "müssen" (devemos).
A causa principal
para essa decisão não é resignação, mas ela é uma decisão consciente e própria
da maneira de que a decisão não é resultado mas fator inicial e causa.
O passeio pela vida
é ilustrado com detalhes; A melodia tenta nos primeiros compassos ganhar
altura, mas cai sempre de novo para baixo, se encarapita de novo, mas só para
cair mais uma vez. No quarto compasso começa então a grande marcha pelo vale da
vida, o „vale das tristezas terreal“. No final parece por um momento que tudo
vai bem, mas de repente termina tudo e desmorona com um saltus duriusculus na
profundeza. Esse fim trágico da vida, crivado por cromatismo e salti
duriusculi, parece bem desagradável. Atrativos doces como os tons agudos dos
oboés em compasso 7 são esperados somente para depois da vida.
Tais reflexões podem
chegar facilmente à mente de um ouvinte, que ouve a cantata logo depois da
leitura do evangelho no culto. O órgão com seus sons celestiais, que entra
também em compasso 7, visa outrossim a vida limpa e clara depois da morte. Ele
direciona-se para cima saltitando alegre (um alegre todavia limitado pelo fato
que estamos numa tonalidade menor) e virtuoso, e mais tarde começa a
declinar-se ____________
empor,
um sich
28
suavemente, voltando
para a vida terreal, incorporado pelo primeiro tema.
Parece tudo tão bem
entrosado com o tema da cantata, mas é fato que Bach concebeu essa peça
maravilhosa não originariamente para essa cantata e o seu texto, mas como
concerto para piano, conhecido como BWV
1052. Este, por sua vez, é uma transcrição de um concerto para violino, que se perdeu e só
pode ser reconstruído baseado no BWV 1052. Em que Bach pensou na composição
original, não pode ser provado, mas já que é evidente que a música confirma o
conteúdo da cantata a conclusão é que Bach colocou o movimento no início da
cantata, porque o conteúdo coincide (por acaso ou planejado de antemão) com o
texto da cantata.¹ Bach quase não mudou a música, a não ser a instrumentação.²
Na cantata se ajuntam às cordas os dois oboés e um corno inglês, e em lugar do
cravo o órgão toca o solo. Ela tem que ser executada com uma voz a 4 pés, pelo
menos se se usa um órgão igual à do Bach, que não chega ao quinto Lá (A5 ou
a''' ). A abertura tem 190 compassos, um tamanho muito grande, que corresponde
a 7 até 10 minutos duração.
____________________________________________________________
¹ A hipótese, que o
movimento é a entrada da cantata 188 (Schweizer, p. 614), foi refutada por
Dürr, que alega que esta seria o terceiro movimento do concerto. (Die Kantaten
von J.S.Bach p. 499)
² Além de trechos
das cordas agora tocados pelos sopros sozinhos ou junto com as cordas (c. 70 ss)
e harmonização por notas longas (c. 83 ss) ou ritmos (c. 46ss) achamos também
material novo: Os oboés em compasso 7, como já foi mencionado, e correspondendo
os sopros rítmicos a partir do compasso 22 (entre outros), e mudanças nas
cordas nos compassos 166 – 171. Em lugar das fusas do cravo o órgão toca em
homofonia com as cordas. O motivo não é claro, existem três hipóteses. Poder-se-ia
tratar de uma Noema como em BWV
12, movimento 2, ou Bach deixou as fusas de lado por causa das limitações da técnica
do organista ou da mecânica do próprio órgão, ou ele anotou só os acordes para
o organista puder improvisar cadências. (Contra a última hipótese se
alega que Bach não anotou o baixo geral como de costume, mas em partitura. A
anotação é assim que o organista nem vê sempre o acorde completo, o que
dificultaria uma improvisação. Contra a primeira hipótese se argumenta que não
se sabe o sentido da noema nesse lugar. A respeito da segunda hipótese podemos
constatar que nem é tão incomum tocar rápido no órgão, e se fosse realmente
impossível, Bach poderia pelo menos anotar semicolcheias em lugar das fusas.)
29
A
forte saudade pela morte, que está presente no texto, no entanto não se
encontra da mesma maneira nessa abertura. É claro que não sabemos, se Bach
planejou isso assim ou se essa divergência se reporta simplesmente ao fato, que
a música não foi concebida originariamente para esse texto. Sobre o significado
do número 19 falarei quando chegar ao terceiro movimento. Já seja mencionado
que 190 multiplicado com três, o símbolo do Deus triúno, redunda em 570, o que
é o valor numérico da frase "Wir muessen durch viel Truebsahl in das Reich
Gottes eingehen."
A
cantata 103 sobre o texto de von Ziegler não tem uma abertura instrumental, mas
o primeiro movimento tem um prelúdio longo da orquestra antes do coro entrar.
Ele prepara os ouvintes, como um prelúdio no início de um culto ou de uma missa
ou a abertura de uma ópera. Ele está em Si menor, mas parece por causa dos
ritmos agitados belicoso e lutador. Trata se de um ritmo, que Schweizer
apresenta como ritmo típico de alegria:
Aqui,
no entanto, em tonalidade menor não se parece com aquele regozijo verdadeiro e
espléndido que conhecemos do oratório de natal, dos hinos pascais do volume 5
para órgão e de muitas cantatas, mas a gente sente que se esconde alguma coisa
ruim entre as notas.
30
Os primeiros coros
Todas as três cantatas trazem no início um coro; a
recém-mencionada 103 tem ele como abertura e em forma de um primeiro movimento
de um concerto, e este corresponde dessa maneira também com a abertura
instrumental da cantata 146. A tonalidade Si menor aparece acre e até melancólica.¹ A
melancolia se revela ainda mais pela transparência da instrumentação: Em cima
das cordas e de dois oboés de amor paira uma flauta doce pícolo.²
________________________________________________________________
¹ veja Kelletat, p. 108 s. Stephen Daw, no entanto, alega que Si menor seria uma tonalidade de
alegria forte e íntima para Bach. (Bach: The Chorale Works S. 164 f)
² A flauta doce pícolo (em italiano Flauto Piccolo), um
instrumento barroco que não é necessariamente idéntico com o sopranino moderno, encontramos em dois coros
de abertura fora do comum: Além da cantata 103 se acha na Cantata 96 (Herr Christ, der einge Gottessohn), que foi concebida para o dia 8
de outubro 1724, onde ela pinta evidentemente o cintilar tremido d’estrela da
alva. Em ambos os casos a flauta pícola foi para outras apresentações substituída: Na cantata 103
no ano 1731 pela flauta traversa ou violino, e na cantata 96 pelo violino pícolo, um violino que fica uma terça mais agudo do que o violino
comum, que Bach usou também no famoso Concerto para violino em Lá menor.
As causas para as substituições não são conhecidas.
Embora que as duas cantatas fossem
criadas na mesma época, Thalheimer alega em um artigo no Bach-Jahrbuch 1966 (Livro anuário „Bach“ do ano
1966), que se usava na cantata 96 uma flauta pícolo em Fá, e na cantata 103, no
entanto, uma flauta pícolo em Ré. (Ambas as flautas são documentados com imagem.) A flauta em Ré é notada em transposição uma terça menor para cima, dessa
maneira a primeira nota Fá# é anotada como Lá. Ela usa a clave em sol francesa,
que fica duas notas em baixo da clave comum, e tem o âmbito Mi3 até Fá#5,
anotado Sol3 até Lá5. Como
a flauta doce soprano soa na verdade uma oitava mais agudo, o verdadeiro âmbito
seria e então Mi4 até Fá#6. Thalheimer não vê problemas técnicas para executar o tom mais agudo,
porque a flauta seria segundo ele de um tipo mais delgado e estreito, o que
facilitaria o tocar dos tons mais agudos.
Mas também a flauta doce pícolo em Fá seria uma opção, sobretudo
porque a notação de uma terça em cima poderia ser causada simplesmente pelo
fato de que o órgão de coro da igreja estava afinada provavelmente uma segunda
maior ou uma terça menor mais agudo (tom
de coro). Claro
que o Mi3 seria bem difícil, mas um flautista virtuoso conseguiria com ajuda do
joelho. Veja mais em: Windkanal, The Forum
for recorders
31
O som agudo da flauta parece sozinho e perdido na sua
altura. Depois de um tom longo, que realmente associa um lamento, ela se
ajunta, todavia, ao movimento animado dos outros instrumentos, que se acha
muito semelhante em muitas músicas alegres de Bach,¹ só que desta vez tudo
acontece no género menor. Em
lugar do habitual couplet (estrofe) de um
primeiro movimento de um concerto segue-se uma fuga perfeita a quatro vozes com
permutações (Permutationfuge²),
com a mesmo sequência de vozes como a grande fuga "Herr, wenn die stolzen Feinde schnauben"
da sexta cantata do oratório de natal. Nessa e em muitas outras a introdução da
orquestra traz os mesmos motivos da fuga; na Cantata 103, todavia, Bach decediu-se para
um outro caminho e criou dois antígonos. O coro exprime tristeza e terror, claramente expostos na
música. Depois de três seminimas segue-se uma katabasis, incluindo ainda por cima uma segunda aumentada. Ela é muito
característica em si, e também divide as quatro colcheias em duas e duas, que
dessa maneira parecem-se com dois gemidos. Logo depois aparece uma exclamatio semelhante a um grito
da fundura, a seguir mais dois gemidos e outra exclamatio, antes do começo da
próxima voz. Temos um acúmulo dessas figuras em um trecho curto, e elas formam
entre si ainda três vezes uma parrhesia.³ Também nos contrapontos se acham várias figuras, que
exprimem tristeza e angústia. Somente
as primeiras três notas do tema não contém uma figuras; em contrapartida Bach
colocou no primeiro compasso da flauta piccolo uma anabasis
cromática, que poderia ser considerada uma inversão do início do segundo
contraponto.
_________________________________________________________
¹ veja por exemplo o hino final da Cantata 167, que é citado também por Schweizer (p. 499) como exemplo de alegria.
² Veja a respeito desse tipo de Fuga (Permutationfuge) Werner Neumann: J.S.Bachs Chorfuge, Leipzig 1938 (De: Schriftenreihe des staatlichen
Instituts für deutsche Musikforschung), sobretudo p. 32 s.
³ Parrhesia, (grego: Liberdade de falar),
Figura afetiva que descreve algo sem sustento, sem fundamento, usando um trítono (quarta aumentada ou quinta
diminuta) em acorde ou na melodia. No
acorde ele aparece normalmente sem fundamento, por exemplo como acorde
diminuto.
32
Depois de todos as quatro vozes terem cantado seu tema e
contraponto, segue-se (como nesse exemplo do Oratório de Natal), conformo o
esquema de concerto, algo novo: mais um ripieno.³ O tema da alegria em si menor
aparece desta vez não nas cordas, mas no coro, inicialmente em duas vozes. Elas cantam da alegria
do mundo, que é uma alegria falsa, uma felicidade por causa da desgraça de
outros. Agora os pressentimentos dos
ouvintes, que desconfiavam da alegria explanada no primeiro ripieno, do início,
como já descrito em cima, estão explicados: O género menor quer alertar, que o
tema é falso.¹ No Couplet a seguir Bach constrói uma
outra fuga permutativa (Permutationsfuge). Começa com o tema conhecido, mas no contraponto ajunta-se o
tema da „alegria do mundo” com o texto "aber die Welt wird sich freuen" (mas o mundo se
alegrará), desembocando em uma coloratura em semicolcheias, que fica em lugar
do terceiro e quarto contraponto. Assim, nesse couplet os temas sofrimento,
tristeza e alegria falsa competem e brigam (“concertam“ no sentido de concertare, latim/italiano =
competir, emular) entre si. Dessa maneira os temas do ripieno aparecem também
no couplet e garantam que o ouvinte sente a unidade da forma. Comparações com a
Cantata 104 "Du Hirte Israel " do ano 1723, da cantata 147 ou da
cantata 5 do oratório de natal mostram igual como análises de tentativas
anteriores de integrar fugas na forma de concerto como nas cantatas 17 e 67 que
se trata de uma coisa única e especial para a cantata 103. Dois sentimentos
opostos lutam e competem aqui, uma particularidade compositora, que se encontra
fora disso só em composições de Beethoven e de épocas posteriores, é concebida
por Bach nesse movimento extraordinário.²
A alegria do mundo entra então também no couplet e reaparece naturalmente também no segundo ritornello, que termina em F#m, encerrando assim a primeira parte do movimento. Assim se torna o motivo predominante, embora que antes do meio-fim nos compassos 91 até 98 o regozijo desembestado do mundo seja confrontado com lamentos: semínimas em todas as quatro vozes do coral, que formam um acorde diminuto descendo e várias parrhesias.
Esse último ripieno é
quase sem alterações copiado do primeiro, só transposto para Fá # menor.
Somente o coro foi adicionado, da maneira de que podemos desse trecho aprender
como se inclui um coral a uma música instrumental já existindo antes.
__________________________________________________________________
¹ Compara por exemplo o Deus
verdadeiro (maior) e o deus falso (menor) no violoncelo da aria „Meu crente coração” (Mein
gläubig Herze, ária da Cantata 68)
² Para Schweizer (p.434) esse coro é um exemplo
„clássico“ (típico) de dois sentimentos opostos que se combatem.
³ ripieno (italiano) significa
repleto. É a parte em um concerto, onde todos tocam, enquanto em outros lugares
só os solistas tocam. Aqui se usa para a parte do ritornello.
33
O meio-fim em Fá# menor desemboca em um recitativo do baixo, com
acompanhamento da orquestra inteira. O baixo cita a continuação do texto: "Ihr aber werdet traurig sein." (Vós, porém,
sereis tristes.) Novamente achamos muitas figuras musicais que reforçam o que o
texto exprime. Sobretudo achamos por várias vezes com a palavra “traurig” (triste) uma exclamatio, ligado a um saltus duriusculus, e às vezes junto com
uma parrhesia. Quando se repete
pela última vez, começa na profundeza obscura (o baixo começa mais grave do que
o violoncello) e revela a palavra “traurig” com um melisma, que contém suspiros
e parrhesias. Além disso achamos
muitos tons alheios (pathopoeia¹), que descrevem com sua cromática a tristeza e o
sofrimento.
Depois desse trecho
intercalado o coro volta. Tais intercalações chamam se como figura musical ou retôrica tmesis.²
Por essa tmesis o coro da entrada
recebe a forma A-B-A'. Vemos a sintese empolgante entre a
forma do concerto intrumental, uma fuga permutativa
e a forma A-B-A. Como tudo isso a música nem aparece rebuscada e artificial,
mas como ela só poderia ser assim e não diferente – um fato que já foi muito
comentado por Schweizer, Spitta e outros próceres das
pesquisas sobre as músicas de Bach.
A parte A’ depois do recitativo é constituída pela
repetição da fuga permutativa em lugar de um couplet, porém no tom Lá menor, uma quarta mais alto do que antes
e com o texto "Doch eure Traurigkeit..." (e a vossa tristeza), o que tem a sua continuação
no texto ''...soll in Freude verwandelt werden'' (seja transformada em alegria) com o segundo
contraponto, feito do tema musical da alegria (veja em cima) e sem o marcante
salto na sétima, em forma de exlamatio; e como ripieno aparece o já conhecido da parte A, agora
naturalmente no tom principal. Assim o coro termina com o tema da alegria. _________
________________________________________________________________
¹ grego: pa[Símbolo]os poiein = gerar (fazer)
sofrimento, tristeza. Veja. Bartel p. 236
² Tmesis (grego temnein = cortar, dividir) como achado em
„Vogt und Spieß“ corresponde segundo Schmitz (p. 34) à suspiratio de Kircher. Mas tem como figura também outras aplicações.
Para Bartel (p. 274) a tmesis é uma pausa ou uma palavra intercalada na retôrica, que causa um inciso ou uma interrupção.
34
Esse fato, porém, no barroco não significa sempre como na
época romântica, que o compositor quer revelar algo com isso, porque no barroco
as formas eram seguidas com mais rigor e o compositor volta na forma A-B-A para
dar satisfação à forma, sem maiores intenções.¹ Desconsiderando então o fato
que no final sobra a alegria, podemos confirmar o resultado da análise do
texto: Grande tristeza e sofrimento, e a alegria do mundo, em oposição, aumenta
ainda esse sofrimento.
Bach revela esses adágios teológicos por figuras características no
baixo. Enquanto o baixo contínuo consola os cristãos pranteados na segunda fuga
permutativa lembrando da bem-aventurança eterna,² ele ataca os mundanos alegres
com força pelas sequências com quedas de quintas nos compassos 13 até 16,
ameaçando-os três vezes com a descida para o inferno.
A análise numerológica não rende resultados
convincentes. O total de compassos 155 reúne em
si o numero de Deus (1) com o 55, que simboliza o cálice, então o sofrimento. Se
ele fosse concebido de propósito, Bach queria certamente concluir mais uma vez,
que o caminho para Deus (o caminho de Deus) transcorre pelo sofrimento, assim
como já Jesus o percorreu. “Bach” em forma do número 14 poderia ser escondido nos 14
temas da primeira fuga.
A cantata 146 usa
também para seu segundo movimento, o coro inicial, o concerto para cravo em Ré
menor como base musical. Nos
87 compassos, em que as cordas reaparecem sem modificações, o cravo solo
continua ser substituído pelo órgão que en- _____________
_________________________________________________________________
¹ Por essa razão Schweizer critica, que a forma da ária com da-capo obriga a Bach e a outros para repetirem no final a
primeira parte, embora a parte média muitas vezes desenvolve o texto para uma
perspectiva diferente. (Um exemplo muito absurdo Schweizer aponta na "Es erhub sich ein Streit" onde o início conta de uma
luta entre o dragão e o arquanjo Micael, enquanto a segunda parte conclui com a vitória de Micael. Mas pelo dal-segno o texto do início volta, deixando a impressão errada que o
dragão ressuscitou para lutar uma segunda vez. P. 574 ss)
Mas Schweizer destaca também que Bach, igual a um pintor, capta
um determinado momento e não uma sequência cronológica, assim como também em pinturas
antigas várias cenas se reunem, que na verdade aconteciam em momentos
diferentes.
² A respeito do ritmo da bem-aventurança
("Seligkeitsrhythmus") veja Schweizer p. 489 e 457
35
toa na sua introdução de 12 compassos repletos de colcheias
e semicolcheias uma litania semelhante à do oboé na cantata 12. Como na cantata 12
acham-se também aqui numerosas figuras exprimindo sofrimento; assim se mostra a
firmeza da linguagem musical de Bach, porque aplica depois de 13 anos para
temas iguais ou semelhantes as mesmas figuras. Tambem as
colcheias, que formam gemidos ou suspiros, se encontram novamente nessa
sinfonia. Em tudo podemos confirmar, que a composição calha bem no texto "Wir müssen durch viel Trübsal..." (Por muita miséria...). Mas talvez Bach queira manifestar mais: O caminho pela vida
é constituído por várias etapas, pelas quais nos passamos, subindo na
sociedade, no trabalho etc., mas somente para depois sofrer uma caida¹ ainda
maior (compasso 1-2), ou para enredar-se sempre mais nos pántanos e catanduvas da
vida (compasso 3-9).
Depois de algumas derradeiras tentativas frustradas, sem
poder mudar a tendências descendente (compasso 9-12) chegamos no fim para o
ponto mais baixo, na miséria (compasso 13), onde os violinos tocam seu tom mais
grave. Segue-se a litania cantada pelo órgão, como já descrita em cima, como
uma carpideira depois de uma morte ou outra fatalidade.
Ao material já concebido para o Concerto instrumental
ajunta-se o coro, entoando sua ode triste logo no primeiro compasso. Enquanto o
baixo segue ao andamento das cordas em uníssono, como já descrito, e assim se
enreda nos compassos 4-6 mais e mais na melancolia, o soprano mostra a duração
da tristeza por uma nota de dez batidas. Esse prolongamento de certas palavras
por notas longas ou melismas é um apanágio típico da linguagem musical de Bach e de
certos outros contemporâneos.
_________________________________________________________________
¹ Esse salto não é somente um saltus duriusculus por cima de uma sétima maior para baixo, do Ré, a terça do acorde Bb até o Mib em baixo, em vez do Eb em cima. Além de ser isso uma solução errada, descrita por Schmitz, p. 61 como katachresis (grego: κατάχρησις = Uso, abuso), o salto radical é
também uma hypotyposis (figura caraterística, ὑpotuposiς = maquete, traço), que se acha
muito significante no „Livrinho para órgão“ no hino "Durch Adams Fall ist ganz verderbt". Aqui Bach desenho a caida precipitada do paraíso celestial para o vale das lágrimas
terreal.
36
Mas enquanto outros compositores só enfeitam expressões e
palavras bonitas por melismas¹, Bach visa com a sua
exegese de palavras um sentido mais profundo. Isso vai ficar cada vez mais claro quando
examinamos as três cantatas.
Contralto e tenor pintam a tristeza também com notas longas
e melismas.
Nisso o contralto entra no auge de sua frase em uma parrhesia, ainda por cima no acento do compasso, que, embora
sustentada pela nota fundamental, causa um efeito forte. Entretanto o tenor
forma uma parrhesia pelo salto para baixo em compasso 5, que pelo salto parece
ainda mais dura. Aqui falta também a fundamental, e o tenor chega a cantar mais
grave do que o violoncelo, o que em analogia ao tom mais grave do baixo no
recitativo da cantata 103 (veja em cima) revela a escuridão, abatimento e
fundura. Com esse salto para baixo o tenor desvia-se para a posição do baixo.²
Somente as palavras "Reich" (reino) e "Gottes" (de Deus) fazem a voz se levantar um pouco, se bem
que em um salto fraco e sem forças, e assim ele não pode mudar a impressão
lúgubre.
Essa interpretação do material
musical pode ser confirmada na comparação com trechos semelhantes nas obras de
Bach: A fraqueza ou cansaço (- quase se veem os peregrinos exaustos caminhando
pelo vale terreal da morte -) aparece também no movimento das colcheias da Cantata
156 ("Ich steh mit einem Fuß im Grabe"), que Schweizer (p. 482 s) cita como exemplo típico para cansaço e andar
exausto e lento.
Mais forte é ainda o parentesco do tema das cordas com a
ária para soprano "Ich wünschte mir den
Tod, wenn du, mein Jesu, mich nicht liebtest" da Cantata 57
"Selig ist der Mann". Essa
saudade da alma (representada pelo soprano) pela morte é segundo ////////////
______________________________________________________________
¹ Compare, entre outros, no Messias
de Handel os melismas em uma palavra como „purify“ (alemão läutern, português limpar) ou Born (português nascido). Aplicando os critérios de Bach deveriamos pensar que Handel queria descrever o nascimento como sendo
um ato longo e difícil. Mas isso não combina com o caráter alegre da música.
Somente no melisma „company“ (multidão) o significado é evidente, porque o grande
número de notas simboliza a multidão dos mensageiros de Deus.
² Heterolepsis: (grego: eterolepsiς, o tomar do que é do outro, invasão), aqui o saltar de
uma voz na esfera tonal de uma outra.
37
Schweizer um exemplo clássico para „dor esmagadora“. Essa saudade pela morte já foi destacada
na análise do texto da Cantata 146. A
música, dessa maneira, vai ainda mais longe do que o texto, antecipando já o
desconsolo da segunda estrofe. É fascinante como o texto e a música se
completam; ao que parece Bach pensou já nesse texto quando escreveu o Concerto
para violino (ou seja cravo). Talvez sabia já nesse tempo que reaproveitaria a
música outra vez, como era quando escreveu as músicas que depois entraram no
Oratório de Natal. Claro que não tem como provar essa hipótese, mas de qualquer maneira podemos constatar que Bach não aproveitou músicas a toa para conceber uma cantata às pressas, mas escolheu-as sob critérios exatos e com toda a diligência necessária para uma música religiosa. Assim conseguiu sem dúvida uma cantata na mesma qualidade e expressividade como nas outras cantatas.
O único raio de sol nessas trevas é
o tom final, que pela terça maior do tenor vira o género menor para o maior e
deixa um laivo fraco de consolo por causa da esperança pelo reino de Deus. Esse
consolo aparece no compasso 87, o último compasso do movimento, e isso
certamente não é só coincidência: também o valor numérico da palavra „Trost“ (consolo) é 87.¹ Susanne Schöneweiß vai mais longe e vê já na aposiopese²
em compasso 72 um primeiro sinal para o fim do sofrimento, que lembraria
a vida eterna.
Seja permitido mais uma reflexão
sobre o tema para alumiar mais ainda a exatidão da linguagem musical de Bach:
Se mude e simplifique o tema substituindo os pares de colcheias com respectivamente uma semínima, acabando com o
andamento arrastado e gemido. Depois
se ameniza o saltus duriusculus para baixo levando o Ré para o Mib, para fazer o salto para baixo a seguir, partindo do Mib. Dessa maneira ganhamos um tema que exprime o sofrimento
de um modo muito mais geral, sem os adicionais específicos da cantata. Bach usou esse tema desta forma
mais geral na fuga para órgão em Fm, uma fuga cheia de expressividade e figuras musicais. Confirma-se assim o significado do tema, e na cantata, ou
seja, no concerto para cravo se ajuntam ainda o andamento lerdo dos peregrinos
abatidos e o salto “cabeça para baixo”.
_____________________________________________________________
¹ 87 compassos se encontram também nos movimentos de cantatas 125,1 „In Fried und Freud fahr ich dahin" e 44, 6
"Es ist und bleibt der Christen Trost". O valor numérico se encontra adicionando o valor das
letras. A = 1, B = 2, C = 3, etc. Base é o alfabeto latim, em que o j não
existia. Por isso “j” é contado como “i” = 9, e “u” e “v” também são igualmente
20.
² Aposiopese , grego ἀposiopese = silêncio (depois do estacar súbito do andamento musical) (Veja Bartel, p. 106)
38
Para a cantata 12 esperamos agora a versão mais carregada
de sofrimento e dor. Ela deve ser pelo menos tão intenso como no segundo
movimento da cantata 146, que pela revelação da saudade da morte também está
ligada a um sofrimento muito grande. E isso acontece também assim. Bach escolhe
ferramentas simples, mas com efeitos fortes e significativos.
Primeiramente Bach escolhe uma
sequência caraterística e cromática (e cromática significa nas obras de Bach
sempre sofrimento) para construir com ela uma ciaconne. Como já na sinfonia da cantata o mestre inclui também
números simbólicos: Doze vezes aparece o tema no baixo. Ao que parece visa esse
número os doze discípulos: onze fieis e um infiel, que aparece sem coral.
(Compare com os onze discípulos na Cantata 22, primeiro movimento "Jesus nahm zu sich die Zwölfe", i.e. “Jesus
acolheu para si os doze”, onde o motivo instrumental consiste de onze notas e
volta onze vezes, e onde também o arioso do baixo tem onze
compassos.) Junto com o da-capo e as três partes do
trecho médio chegamos novamente ao número 27, como na sinfonia. No total são 141 compassos, um
número especial para Bach, porque apresenta em si visualmente a soma de seu
sobrenome e de seu sobrenome com os iniciais dos nomes, uma abreviatura comum
na Alemanha (Bach = 14; J.S.Bach = 41, estes dois números fazem parte de 141). Bach gostou muito desses números, porque em soma 14 mais 41
são 55, o valor da palavra KELCH, que simboliza por sua vez a paixaõ de Cristo. Destarte as sentenças teológico-musicais formam um verdadeiro testemunho: As duas vezes doze
partes podem simbolizar os doze patriarcas e os doze apóstolos, que já antes de
nós passaram pelo caminho do sofrimento. No meio deles se encontra Deus, o cabeça deles, simbolizado
pelo número 3. Os patriarcas e apóstolos levam merecidíssimamente os sinal de Deus, por isso eles
recebem respectivamente 7 vezes 7 (=49) compassos. E a eles o próprio Bach também se
ajunta, e Bach representa o “eu”, convidando assim a cada um de nós a seguir o
seus exemplo.
Mas voltemos para o tema do baixo:
Semelhante ao tema do coro na cantata 146 ele é um motivo caraterístico e
conhecido nessa época como „tema de lamento“. Ele reporta ao século XVII, e em
1710 Vivaldi escreveu a cantata secular "Piango,
gemo, sospiro e peno", e sendo ela bem conhecido é provável que já o
poeta do texto das cantata 12 se inspirou nela. Dessa maneira fica muito
evidente, que a cantata de Vivaldi influenciou também a Bach até o grau de ele
usar a mesma ária. O emprestar ou copiar de trechos musicais, na música antiga,
não é uma arte menos pura ou séria. Não
era menosprezada como hoje. O transformar de músicas ja existentes chamava-se contrafaktur (contrafactura), que já existia desde o início do cristianismo, continua
com Lutero e outros patriarcas e existe até hoje. Tenta aproveitar os maiores tesouros da cultura para o
louvor a Deus e a missão.
39
Além disso, os ouvintes dos séculos
passados, que viviam sem CDs e outras mídias e dificilmente podiam ouvir
apresentações em teatros ou outros lugares, onde se apresentam músicas
clássicas, podiam ouvir as ideias mais delicadas dos melhores compositores do
mundo na igreja em forma dessas contrafacturas. (A música secular até a época
de Bach foi apresentada somente nos castelos para os príncipes e seus
convidados, e em dias festivos como quermesses e casamentos no ar livre.)
O tema cromático, que cai uma
quarta para baixo, foi usado por Bach em quatro outras músicas: Já em 1712 ele
fez uma fuga desse tema na cantata 150 "Nach dir, Herr, mich verlanget", e em 1732 ele reaproveita o
coro de nossa cantata 12 para escrever o Cruxifixus, a parte central do Credo da
famosa Missa em Si ¹. O
emprego nessa missa exímia prova, que Bach teve o tema em alta consideração. No ano 1740 ele usa-o mais uma vez
para a passacaglia da Cantata 78 (Jesu, der du meine Seele).
Porém, Bach usou o tema também já em 1704 no "Cappriccio sopra la lontananza del suo fratello
dilettissimo" BWV 992, uma música que exprime as dores por causa da morte do
irmão predileto, que é designado também como “lamento”. Isso mostra, que Bach
conhecia e usou o tema já antes de conhecer a arte de Vivaldi na Itália.
²
As violas e os violinos descrevem
em compassos a 3/2 quase ininterruptamente suspiros, que começam em tempo três
e terminam no primeiro tempo. Nisso os violinos e às vezes também as primeiras
violas tocam constantemente salti duriusculi para baixo, sobretudo trítonos. Toda a imagem musical apresenta uma tristeza tão
desconsoladora como poucos outros.
Os naipes do coral começam as suas lamentações apressadas
pela angústia logo no segundo tempo do primeiro compasso. Cada voz cita uma outra palavra do primeiro verso. Essa técnica de começar em cada voz com outras palavras
ocorre nas obras de Bach raramente; entre outros se acha um coro dessa maneira
no início da terceira parte do Oratório de Natal. Ao contrário a esse exemplo o
tema musical é na cantata 12 sempre os mesmo, como em uma fuga. Bach aproveitou
o fato, que o texto das vozes é parecido e tem o mesmo número de sílabas. O
tema começa com uma nota longa, que termina com um suspiro no primeiro tempo do
próximo compasso.
__________________________________________________________________
¹ Sobre o Crucifixus veja, entre outros: Rilling, Helmut: J.S. Bachs H-Moll-Messe, Hänssler, Neuhausen-Stuttgart 1979, pág. 75ss e Walter Blankenburg, Einführung in Bachs
H-Moll-Messe, dtv, Bärenreiter, 3ª tiragem 1986, pág.76 s.
² Veja Ambrose em Bach-Jb 1980, pág.35s
40
Com essas apojaturas Bach evita também o efeito „Wortgeklingel“ (balbucio vão, que parece erudito
ou filosófico), que se acha com facilidade em hexâmetros.
A terceira variação traz um tema fugado novo, e mais para
frente encontram-se também temas livres ou combinações dos temas anteriores. A
sexta e sétima variação trazem um noema¹, uma parte homófona, que entra de
repente para ressaltar um trecho ou um aparte do texto. Ele coincide com uma
nova parte do texto, que começa com as palavras "Angst und Not", que somam o valor 149. É notável que o coral canta
nas primeiras seis partes da chacona também 149
notas.
Desde o início a música é dominada pela cromática,
implicando muitas parrhesias. Em parte a cromática já é natural do gênero menor por causa
das variações entre menor natural, harmônico e melódico, mas o emprego da
cromática aumenta, chegando ao seu auge na 8ª e 9ª versão, onde se acumulam
também os suspiros.
Na parte média a música interpreta a palavra „tragen“ (portar, carregar) com um melisma: quem é portador do sinal de Cristo ("Zeichen Jesu"), carrega por muito tempo e o caminho leva para o
vale dos sofrimentos.
Também o sinal de Jesus aparece nas marcantes semibreves
dos compassos 85 até 88, onde elas formam um quiasmo.²
O texto na parte A some, segundo Arthur Hirsch (Die Zahl im Kantatenwerk J.S. Bachs/ Os números nas cantatas de J.S.Bach) o valor 666, e na
parte B 222. O número 6 visa o mundo, o terreal, enquanto o dois indica a
Jesus. 222 poderia conter também uma alusão ao Salmo 22, que visa a cruz por
sua vez pelas palavras „Deus meu, Deus meu.“ A soma de 666 mais 222 é 888, um
valor que segundo o alfabeto judaico-apocalíptico corresponde ao nome Jesus em grego
(IHSOUS).³
___________________________________________________________________
¹ Noema, grego νόημα, noêma, o pensado, o que foi
pensado, também a decisão, opinião, cognição. A raiz é a mesma como na palavra
grega νoυς.
² Se liga a primeira nota com a última, e a segunda com a
terceira, resultando em uma cruz. Quem conhece bem as quiasmas, repara-as
também quando ouvir uma música. Bach escreve a palavra Christen (cristãos) como Xristen. A palavra aparece 9 vezes.
³ VejaHarry Hahn; Symbol und Glaube (Símbolo e fé) na parte 1 do Cravo
bem temperado (Wohltemperiertes Klavier), pág. 27 f.
Hahn anota que 111 e 888 tem um relacionamento forte.
41
O soprano contém exatamente 111 notas, o que poderia visar
a Deus, pelo número 1.¹
Até aqui as deliberações de Harry Hahn. Fazendo uma nova contagem cheguei, porém, a 684 em vez de
666. Esse número vai ter um papel importante na parte final.²
De qualquer maneira podemos confirmar, que a música confirma as
expectativas que já a leitura do texto surte.
___________________________________________________
¹ Baseado nas demais teses no livro
de Harry Hahn poderia perscrutar os números 111,
222 e 666 com ângulo de vista cristão-místico ou também gnóstico, para descobrir ainda mais sentidos. O três números 222, 666 e 111 somam-se à maior exaltação de
9, então 999, que contém três vezes o 9, como, em outro sentido, também 27. A
somação horizontal de 999 (9 mais 9 mais 9) resulta também em 27. Os números
básicos 1, 2 e 6 somam-se em 9, e o produto deles é 12, mais dois números
importantes nesse movimento.
² Arthur Hirsch alegou em uma carta do ano 1995 a mim, que ele se baseou
na escrita „Trähnenbrod”, uma versão antiga de “Trähnenbrot”. Porém, por mais que investiguei o manuscrito de Bach, de
jeito nenhum podia ver um d em lugar do t. Ao outro lado Hirsch usou para a contagem a palavra Christen em vez de Xristen. A variação Xristen não é uma versão antiga, mas uma
particularidade estranha de Bach nesse movimento. Hirsch alega nessa carta, que “Xristen” seria uma versão incomum, e por isso ele não usou a ela. Será
que ele não teve acesso ao mauscrito? Bach deve ter tido uma razão importante, que
ele usou essa forma. Bach
abrevia a palavra “und” (e) com „u.“, o que é comum na Alemanha, mas incomum em
partituras. Por isso fiz a contagem também só do “u”, ao contrário de Hirsch.
Os valores no cálculo de Hirsch são: 66-47-74-50-58-37-54--44-26-92-81+37 = 666
42
A descrição do sofrimento nos primeiros recitativos e árias
Na Cantata 12, de que foi falada nas páginas anteriores, segue um arioso, que parece pela música mais um
recitativo, só que o texto bíblico fica acompanhado por cordas assim como as
palavras de Jesus na Paixão de São Mateus. Como já Dürr escreveu em "Die Kantaten von J. S .Bach" na página 43 e 44, Bach usa na primavera
1714 por várias vezes um arioso desse tipo. Base é sempre o "dictum", uma palavra da Bíblia, que
não aparece no início da cantata como o costume posterior de Bach, mas no
segundo movimento. Assim
não é o coral, quem interpreta a palavra bíblica. No Domingo das Palmas (Palmarum),
na cantata 182, Bach deu o dictum segundo a tradição antiga das paixões ao baixo, porque se
trata de uma palavra de Jesus. O mesmo ele faz no domingo de
Pentecostes de 1714 no arioso "Wer
mich liebet, der wird mein Wort halten" da Cantata 172 "Erschallet, ihr Lieder". A palavra-chave dos atos, que é citado na Cantata 12, não é
uma palavra de Jesus, mas de um sucessor. Poderia ser qualquer um dos cristãos
ou então a alma, que fala a nós. Bach dedica o arioso ao contralto.²
Da análise do texto e da gráfica estamos na espectativa, que a tristeza seja menos dramática ou profunda do que no
coro da abertura. A tonalidade vira Cm, o que, em comparação com Fm, confirma a suposição. O solista ressalta a melancolia
empregando figuras cheio de afetos como parrhesia e katabasis. Mesmo assim cintila um brilho de longe do reino de Deus,
que é mencionado no texto: Escalas levadas para
cima desenham o caminho para ele. No
final, justamente quando a confusão e a tristeza ficam piores a escala parece
na forma mais bonita, levando para o reino celestial. Esse levantar-se da pior miséria é
sempre o mais impressionante, muito tematizado nas artes desde as antigas
lendas e contas de fadas como Sternentaler (As
moedas-estrelas) dos irmãos Grimm, onde uma menina órfã pobre, nua e sem
abrigo, mas de coração bom, recebe do céu uma fortuna, até musicais como "Miss
Saigon", onde uma prostituta jovem e também de coração bom
sai da miséria (embora que nesse caso o desfecho seja trágico).
___________________________________________
¹ Veja a respeito Schweizer p. 75, rodapé, entre outros
O fato de que as palavras de Jesus são cantadas mais grave,
achamos já nos tons de leituras medievais.
² Artur Hirsch relata uma outra e mais profunda
identificação do sofredor com o Jesus crucificado em "Die Zahl im Kantatenwerk J.S. Bachs" (O número nas cantatas de
J.S.Bach), pág. 57: Ele acha que as 39 alturas de
notas diferentes simbolizam as 39 golpes, que Jesus teria recebido durante a
paixão.
43
Tais
constelações inspiram os artistas, mesmo se o tema já fosse usado demais e
muitas vezes na maneira mais brega,¹ (mesmo se o tema seja muitas vezes banal e
surrado em milhares de romances baratos.) Assim o levantar nessa escala grande
lembra quase a Richard Wagner. Nós cristãos chegamos ao nosso Pai em compasso
7, que simboliza com o número divino 7 a sublimidade de Deus.
Ao
arioso
segue a ária "Kreuz
und
Krone
sind
verbunden"
(cruz e coroa são ligados). Segundo a análise do texto não esperamos muita
tristeza, porque o cristão deve aceitar o consolo que o sofrimento („cruz“) e a
alegria („coroa“) são ligados e mostrar, se muito, uma leve resignação. Bach continua
na tonalidade Dó-Menor, mas usa só poucos afeitos. A corta², de que é concebido
o tema, é em muitas outras músicas um tema de alegria,
_________ ---
_______________________________________________________________
¹ Um exemplo histórico é a grande quantidade de
literatura e contos, que traziam cada vez mais detalhes, depois do resgate da
futura imperatriz Adelaide no paul terrível
de Mincio, pelo imperador Otto I, no ano 951.
² Veja Arnold Schmitz: Die Bildlichkeit der
wortgebundenen Musik Johann Sebastian Bachs (Imagens na música cantada de
Johann Sebastian Bach) Mainz 1953
Em página 30 ele escreve sobre
as figurae simplices, segundo Vogt: "Vogt emprega o termo „figurae
símplices” para figuras curtas da música como corta, groppo, tirata, circulus
(circulus não é o mesmo como a circulatio na música e retórica, mas tem certa
parência.)...
...É óbvio que
as figurae simplices se desenvolveram dos ornamentos musicais. Importante é a
observação de Unger: „Enquanto a maioria dos teoristas separa rigidamente entre
essas “figurae símplices” e os ornamentos, encontramos com Spieß uma estranha
mistura de todos os gêneros de figuras.” Spieß, no entanto, não importou nada
de estranho na figuralogia, a não ser que também as figurae símplices podem ser
portadores de afetos, expressões e sentidos.”
44
mas
Schweizer escreveu, que ela não significa sempre alegria.¹
No
entanto poderia se presumir a alegria nesse trecho também porque o tema poderia
figurar a coroa. Não tem como provar a hipótese irrefutavelmente, a melhor
parte seria o tema inicial do contralto, que pinta na partitura uma coroa com
três entalhes. (Isso lembra as três notas agudas e as duas graves entre elas na
palavra „Krone" (coroa) no recitativo "Ach Jesu" na Cantata BWV
21 "Ich hatte viel Bekümmernis", compasso 13.) Se a suposição, que
Bach mostrou a coroa dessa maneira, fosse certo, poder-se-ia ver no tema do
baixo nesse mesmo compasso uma cruz com a viga transversal simbolizada pela
mínima. Cruz e coroa seriam, destarte, unidos em um só compasso, que reflete
assim a mensagem inteira da ária. Uma outra teoria seria, que no próprio
contralto, que forma o motivo da coroa, a sexta até a nona nota formam também
um quiasmo, unindo cruz e coroa assim no mesmo motivo. O valor das letras de
KREUZ e KRONE é 76 mais 59, em soma 135.² Com isso cruz e coroa são também
reunidas na introdução, porque os compassos 1 até 6 contém exatamente 135
notas.
_______________________________________________________________
¹ Schweizer, p. 508
² Hirsch vê as cruzes no quiasmo do compasso 6 na
quinta até a nona nota, e também nas notas mais altas dos compassos 1 e 2. Essa
última interpretação não parece muito convincente.
45
Nenhuma
dessas teorias pode ser provada, e é bem possível, que nem tudo o que os
leitores e ouvintes reparam na música de Bach foi intenção dele, mas o fato,
como uma coisa se encaixa noutra maravilhosamente, não pode ser meramente
coincidência. Tatsache, wie eines wunderbar zum Anderen passt, stimmt
aber doch nachdenklich.¹
Muito
interessante é também a luta entre duas notas na palavra "Kampf"
(luta) em compasso 101s.
Na
edição „Alte Bachausgabe“ e também na „Neue Bachausgabe“ se acham no final com
as palavras "Kampf und Kleinod sind vereint" (luta e cetra são
unidos) o canto entrelaçado muito audaciosamente com o oboé, e nisso o oboé
fica sem desfecho. Ao contrário disso a edição Eulenburg parte de um erro e
separa e dista as duas vozes.
Na
segunda parte da ária a palavra „Trost“ (consolo) implica mudanças no tema, o
que em compasso 31 ao contrário dos compassos 2, 10 e 19 termina com uma nota
aguda.² Mais tarde, no entanto, se acham novamente pequenos gemidos nas
"Feind" e "Qual". Com isso a tendência amena é arrefecida,
e em soma se confirma o que já esperamos da análise do texto.
Contemplemos
agora a Cantata 103. A expectativa é que o sofrimento do coro continue no
primeiro recitativo e na primeira ária. No recitativo em Fá#m e Dó#m isso
acontece visivelmente. No início o tenor canta acordes diminutos, que o baixo
contínuo acompanha no estilo dos recitativos simples com notas longas. A
primeira frase termina com um sinal de interrogação, que se acha na música em
forma de um fim agudo, mas a melodia visa para cima com tanta força, que
certamente já indica a direção, para onde o “amado” foi arrebatado.
Impressionante e sugestiva é a maneira como Bach compõe as dores com melismas,
que visam para baixo e terminam com suspiros. Destarte o recitativo breve, que
é impregnado pela conclusão fatalista de que Deus não liga para as nossas
dores, se encontra plenamente na tristeza profunda.
Porém,
se o número dos compassos, que é sete, não foi escolhido à toa, poderia
anunciar, que até as dores acontecem dentro do plano e da ordem divino. O sete
aparece ___________
____________________________________________________________
¹
Segundo Ambrose (Bach-Jb 1980, pág. 37s Franck escondeu seu nome na poesia „Kreuz
und Kronen, ...Kampf und Kleinod“. Se Ambrose tivesse razão, poderiamos supor,
que Bach por informação secreta foi inspirado para colocar também termos
codificados na música.
²
O Si-bemol grave teria sido possível para o oboé, porque ele era afinado no
„tom de câmera” e anotado um tom mais agudo. Dürr estranha muito com o fato de
Bach anotar o fim agudo; evidentemente ele não considerou a possibilidade de
que Bach anotou assim de propósito para exprimir melhor o consolo
("Studien über die frühen Kantaten J. S. Bachs", (Estudos sobre as
cantatas temporãs de Bach)).
46
em forma dobrada (14)
também no número dos tons do melisma, e é assim diretamente ligado às dores.
Poderia significar, que se acha a Deus justamente nas dores.
A ária "Kein
Arzt ist außer dir zu finden" (Não se acha médico além de ti) fica ainda
no gênero menor¹, mas começa com notas que esvoaçam esperançosamente para cima,
tocadas pela flauta ou pelo violino solo. Porém, essa esperança não continua
muito, pois a melodia cai novamente. Uma comparação com o tema muito mais firme
na Sonata Bm para flauta mostra claramente essas diferenças e faz entender,
como é estranha essa recaída da melodia logo no primeiro compasso. A melodia
está na procura do alvo, e essa busca vira no segundo compasso até nervosa e
precipitada. Isso é o tema do texto, que o altista canta: a busca frustrada e
debalde. Nisso o solista não é simplesmente a terceira voz como em uma sonata
em trio, mas muda e transforma o tema muito.
A busca também pode
ser interpretada como insegurança, um titubear na fé. Trechos parecidos se encontram na Cantata
109 "Ich glaube, lieber Herr" na ária do tenor "Wie zweifelhaftig ist
mein Hoffen, wie wanket mein geängstigt Herz". A maneira como Bach compus o solo do violino
lembra muito a flauta em compasso 3 e outros semelhantes. Schweizer (p. 484) e
Dürr (Die Kantaten von J.S.Bach, p. 493) caracterizam a ária como „um vacilar
medroso“ („banges Schwanken“). A falta dos tempos fortes no contínuo nesses
compassos aumentam a impressão da falta de algo substancial para se segurar e
firmar. A busca da alma doente pelo seu salvador parece destarte desesperado e
desnorteado.
Ainda mais amargo
compõe Bach quando o texto revela a necessidade da morte. A palavra „muss“
(deve, há de, tem de) aparece como nona menor em relação ao baixo, enquanto o
violino-solo toca uma segunda aumentada, que nem se dissolve, mas entra em uma
prima aumentada. O "muss" traz uma parrhesia com seu trítono, seguida
por um melisma longa com figuras como exclamatios e parrhesias.² Depois dessa
apotesose o solista solicita misericórdia com uma nota longa, assim como um
pecador fica ajoelhado ou deitado por muito tempo na frente de seu rei. fleht der So-
__________________________________________________________________
¹ Mattheson descreve
F#m: "Ob es gleich einer großen Betrübnis leitet, ist dieselbe doch meist
languissant und verliebt, als lethal...“ (Embora que implica grande tristeza, esta, todavia, está na maioria das
vezes languescendo e paquerando, e não letal. ( Veja em Kelletat p.
112)
2 Arthur Hirsch interpreta o fato, que o melisma junto com os tons do
violino chega a 41 notas, como uma alusão ao salmo 41, que fala de doença. Ele
compara esse trecho com o melisma sobre o texto "Arzt" (médico) em BWV 25,3.
47
A esperança implica
uma virada súbita e forte para cima, então ao encontro do céu. Também nas
seguintes aparências da palavra „esperança“ consta esta virada para cima, mas
cada vez mais hesitante, terminando em compasso 56 com um ritmo inseguro. A
ária tem 69 compassos, falta um para alcançar o belo número 70: será que é um
símbolo para o „Liebsten“ (amado) que falta? Ou pelo fato que fomos ao
encontro do séu, mas não o alcançamos por pouco.
Embora que a ária
trate da busca e não da tristeza, a música apresenta claramente uma tristeza
profunda, fundamentada pelas impressões fortes e claras da linguagem musical de
Bach.
Na Cantata 146
esperamos depois da análise do texto a expressão de tristeza profunda na ária
do contralto "Ich will nach dem Himmel zu" („Eu quero para o céu“).
Bach escolhe, no entanto, o tom Si bemol, que é um tom maior, e a melodia do
violino-solo saltita alegremente para cima aplicando até ritmos típicos de
alegria („Freudenrhythmen“) constituídos de uma colcheia com duas
semicolcheias. Evidentemente Bach revela o fato que somos já separados do mundo
e assim virados com toda a nossa esperança para o céu.
O canto pinta essa
subida ao encontro do céu claramente com uma escala ascendente. Mas não se
trata da escala da primeira até a oitava nota, que lembra de uma fanfarra
vitoriosa, mas sai da quinta e chega até a quarta e finaliza na terça que deixa
uma impressão mais branda.
As palavras
negativas que surgem mais tarde deixam uma impressão adequada na música.
„Schnöde“ (vil, desprezível) coincide com uma parrhesia¹, igual ao „Sodom“. A palavra
„ich“ (eu) está relevada por uma exclamatio e distanciado do tom grave da
palavra „dir“ (lhe, a ti). „Ich“ e „dir“ são também separadas por uma pausa,
simbolizando a separação. Esta separação vê-se também na palavra „geschieden“
(separados, divorciados) em compasso 18, quando as vozes seguem em duas
direções diferentes.
Simbólica semelhante
repete-se por várias vezes até o compasso 49, onde termina a primeira parte do
texto.
Em compasso 56
começa a segunda parte, que alega que a falta de paz no aquém faz com que nem
se quer deter nele. nfang in energischer
Tondeklamation erscheint und das Wort
___________________________________________________________
¹ É uma parrhesia
porque a solista canta um trítono em relação à terça do acorde, que fica com o
baixo geral.
48
Bach dá uma grande importância
nessa conclusão, porque o início traz uma declamação enérgica. A palavra
„nimmermehr“, um sinônimo forte de „nie“ ou „niemals“ (jamais), repete-se cada
vez em um tom mais agudo, correspondendo à figura musical do
hiperbaton.¹
Bach visa aqui também
um sentido positivo, o céu almejado pela alma, que se decidiu por ele. O
violino pinta os acordes com uma fluência de semicolcheias, enquanto o baixo
traz calma, consolo e paz celestial com suas colcheias repetidas em grupos a quatro
ou formando acordes.² O céu está contigo („bei dir“): por isso aparecem sempre
notas agudas com as palavras "Denn ich lebe doch bei dir" (pois eu
vivo contigo). Elas lembram das notas agudas da palavra "Frieden"
(paz) e com isso fica mais uma vez claro que se trata da paz celestial e não da
terreal. A visão da paz celestial concede a esse trecho um consolo, confirmação
da fé e quase um sentimento santo. Com isso Bach surpreende em relação ao que
esperamos depois da interpretação do texto em cima, mas a interpretação dele é
consequente e claramente inteligível.
Mas que diferença em
relação ao que vem em seguida: as cordas tocam um acorde diminuto, a voz canta
seu „ach“ (ai) pesado pelas figuras parrhesia e suspiratio, e os segundos
violinos contribuem com um trítono descendente. Mais claro não poderia exprimir
com os meios da época que desde então reinassem de novo sofrimento e tristeza,
e isso em larga escala.
O céu („Himmel“)
leva a voz para cima, mas „böse“ (mau) (com parrhesia na apojatura que também
forma uma nona pequena com o baixo) e „Welt“ (mundo) (trazendo Dó-Menor) forçam
o cantor brutalmente de volta para baixo. Também na palavra „drängen“ (forçar,
pressionar) não falta a parrhesia. „Weinen“ (chorar) está com exclamatio,
parrhesia e suspiratio, enquanto „leg ich mich zu Bette“ (deito-me na cama)
pinta o ato com uma melodia descendente e repousa em Lá bemol. Nos compassos a
seguir continua a lamentação com ricas figuras de dores e sofrimento em uma
concentração que supera todos os outros trechos dessas três cantatas. m Leser
_________________________________________________________
¹ ὑπερβατός, particípio de ὑπερβαινειν, grego: transpassar, passar para, transpor (Hyperbaton = repetição de um
motivo em um grau mais alto).
² Compara por
exemplo o efeito de sempre quatro colcheias iguais no Accompagnato "Comfort
ye" (Consola-se) no Messias de Händel.
49
Finalmente chega a
palavra „verlassen“ (abandonado), onde Bach aplica além das ferramentas já
mencionadas mais um efeito extremo que, porém, não é audível mas somente
visível a quem lê a partitura: as cordas tocam em Mi Maior, e só o cantor canta
um Lá bemol, solitário e abandonado harmonicamente.
As palavras-chaves
"Himmel" (céu) e "Freude" (alegria) estão em relação como
antes „Frieden“ (paz) e „bei dir“ (contigo): eles ficam com o Sol agudo do
soprano, o tom mais agudo deste recitativo. Com isso eles se destacam muito das
notas graves do mundo („Welt“). Um outro Sol agudo em compasso 7 visa outrossim
a Deus, o Senhor („Herr“).
Com 19 compassos o
movimento está em uma relação aos 190 do primeiro, que já traçou o vale de
sofrimentos na terra em geral. Mas nesse recitativo esse vale aparece com
detalhes desastrosos.
A analise do texto
se confirma na música. O texto que mais representa dores e sofrimento implica
também uma música ao par.
50
Consolo e conforto por Cristo
Na Cantata 12 o
consolo já se revela na ária "Kreuz und Kronen sind verbunden" (Cruz
e coroa são interligadas; veja em cima). O ponto mais baixo passou assim, e a
seguir a mensagem vira mais encorajadora. Já que ela nem se destaca muito na
alegria nem na tristeza podia ser tratada mais breve do que outros
movimentos.
Na Cantata 103, no
entanto, o poeta do texto se vira somente no decurso do quarto movimento, do
recitativo "Du wirst mich nach der Angst auch wiederum
erquicken" (Depois do medo tu me também refrigerarás de novo) em
direção à „Freude“ (alegria). Esta palavra aparece realmente no último
verso.
Essa transitória
fica óbvia já pelo fato que o pequeno recitativo começa em Si menor, mas
termina em Ré maior. No início a palavra „Angst“ (medo) e caraterizada por um
saltus duriusculus destacado em forma de um trítono, mas no final a alegria
irrompe com um melisma longo. As colcheias regulares do baixo, que acompanham o
melisma, demonstram as segurança que o crente ganhou recentemente chegado à
conclusão que está guardado em Deus.
No meio do movimento
curto, mas significante as coisas divinas como Erquickung (refrigério), Ankunft
(chegada, vinda) und Verheißung (palavra profética) são destacadas com notas
agudas. Na contrapartida "meine Traurigkeit" (minha tristeza) aparece
com notas graves e um trítonus no baixo. O canto forma uma segunda aumentada
com o baixo. Através de mais uma parrhesia rápida chegamos depois incontinenti
para a alegria.
Como vários outros
movimentos da cantata também este tem um número de compassos que permite a
hipótese que o compositor o escolheu deliberadamente. 9, que é 3 vezes 3 ou 3
em quadrado, então um aumento de 3, exprime a perfeição do Deus triúno.
A semelhança com o
primeiro recitativo é muito claro. Os dois recitativos secos são curtos e
terminam em palavras caraterísticas que são palavras-chaves no respectivo
movimento: "Schmerz" (dor) e "Freude" (alegria). As duas
são figuradas com melismas. No caso de „Freude“ (alegria) Bach lança mão de
notas rápidas e correrias. É ao lado das cortas o meio mais comum dele para
ilustrar a alegria.¹
Com essas
ferramentas simples mas claras Bach marca a virada da tristeza (resignada e
calma) para a alegria.
_________________________________________________________________
¹ Compare Schweizer,
p. 499, entre outras.
51
Na Cantata 146 a
mesma translação deve acontecer em uma ária para soprano. Também aqui Bach
parte da tristeza (calma e resignada), ficando no gênero menor, mas sem aplicar
figuras muito fortes e dolorosas. Ele se limita a desenhar a ideia de um medo
geral com síncopes e ritmos que mudam muito, e pinta o sacudir e semear dos
pingos de lágrimas. O coração medroso está voltado para Deus, porque nos
compassos 19 e 20 ele aparece com o Sol agudo, que simboliza no recitativo
anterior a proximidade a Deus.
Isso corresponde à
disposição tímida e devota do crente em relação a Deus. O consolo que emana da
palavra de Deus ouve-se no baixo em forma do ritmo da bem-aventurança (Seligkeitsrhytmus)
que transluz pela música, prometendo cada vez a felicidade eterna, que espera
os cristãos e adocica o sofrimento. Ré menor é muitas vezes uma tonalidade
associada a lutas e guerras por causa da semelhança com o dórico, mas aqui desenha
por meio do gênero menor caraterísticas como submissão para com Deus, devoção e
também amenidade, grandeza e contentamento.
Na segunda parte da
ária a sublimidade do dia da colheita divina é ilustrada com uma escala para
cima, uma senda grandiosa que leva ao Senhor. Nisso pode ser comparada com a
escala no recitativo da cantata BWV 12.
Já a palavra "jedoch"
(porém, no entanto), que anuncia a reviravolta, traz a escala ascendente. Desde
então Bach fica mais nas tonalidades maiores, oscilando para o menor somente na
"Herzeleid" (sofrimento do coração). Essa palavra forte garante a
permanência de um certo grau de padecimento na música, que Bach guarnece com
cadeias descendentes de suspiros. Em compasso 61 chegamos ao gênero maior, e o
interlúdio com sua correria bela propala por um momento já certa alegria.
Com a próxima entrada do soprano entra
novamente algo negativo, quando os instrumentos com figuras parecidas com as da
primeira parte lembram as vacilações apavoradas e as lágrimas. Os últimos dois
melismas ficam também indecisos: ilustrando a palavra "Gebären" (parir,
dar à luz) nem levam para cima nem para baixo, e somente __________
52
no final a curva se
levanta¹, e "selig" (bem-aventurado) vê a sua felicidade natural
gravemente atrapalhado por irregularidades no ritmo, cromática e mistura entre
tonalidades maiores e menores. Termina com um tom grave antes do da-capo da
ária.
Em geral Bach segue a
linha que já delineamos depois da análise do texto, mas na parte média ele
volta para o humor mais resignado. Com o da-capo Bach volta aos sentimentos
positivos, mas o da-capo é tão comum nas árias da época que não podemos
concluir com certeza que Bach coloca o da-capo para mostrar que no final tudo
volta ao bem.
Justamente por tais
limitações da forma Schweizer até critica Bach por várias vezes pelo uso
frequente das árias com da-capo, porque muitas vezes o ressurgimento dos
sentimentos anteriores normalmente não corresponde com o desenvolvimento do
enredo.
No entanto, Bach não
escreveu o da-capo completo mas somente a introdução instrumental.
Talvez Bach cortou a parte porque sentiu também o problema da repetição no
contexto do enredo, mas não quis ir tão longe de deixar o da-capo completamente
de lado.
O movimento tem 99
compassos, que é um número que pode ser interpretado de várias maneiras. Ao um
lado representa o incompleto, porque falta um número para cem, em analogia ao
número 69. Falta um para alcançar a perfeição da lei de Deus (10 x 10). Ao outro lado representa duas vezes o número 9 (= 3 x 3), que
simboliza a divina trindade. Com a soma de suas qualidades reúne o
humano-animalesco com o divino, assim como o número 66. E virado cabeça para
baixo 66 vira 99.
A essa ária segue de
novo um recitativo, desta vez para o tenor, que figura o Cristo, antes paciente
na esperança do que heroico. Segundo a análise do texto esperamos um movimento
intermediário, situado no meio entre tristeza e alegria., und es wird auch deutlich gesagt, dass ich jetzt noch weine, aber der
_______________________________________________________
¹ A intrepretação do
melisma deixa dúvidas. Será que Bach quer destacar a beleza do parto, ou será
que pensa nas múltiplas dificuldades e na demora do ato que somente no final
vira relamente bom, quando a criança nasce e tudo acaba?
O físico Karl Theodor
Kühn, no entanto, descreve o parto como expressão da mãe e da feminilidade, que
passa por dores, mas seria atraído pelo pai (Deus) por ser feminino e se vira
por isso para cima, enquanto o fruto do parto, que aparece no fim do ato, fica
na terra (Karl Theodor Kühn: Das Weibliche in der christlichen Mystik (O
feminino na mística cristã); Schülerdruckerei
Manufaktur Ottersberg, 1985, p. 86 s)
Susanne Schöneweiß vê na
quantidade do melisma a plenitude do galardão que os crentes recebem no além em
compensação por seus sofrimentos no aquém.
53
Encontram-se muitas expressões de sofrimento, mas o texto
deixa claro que „eu choro só por enquanto“, mas também o consolo está dentro do
movimento e assim ele termina com um otimismo tímido. O recitativo seco está em
Lá menor e precisa de 17 compassos pelas 14 tiras do texto. Como já constatamos
na análise do texto faz o par com o
primeiro recitativo da cantata. Este contém 19 compassos e 17 tiras. Visto que cada tira abrange menos sílabas o tamanho total é quase o
mesmo em ambos os recitativos.
Eles são parecidos
também quanto à matéria musical, um conceito didática que já encontramos nos
dois recitativos da Cantata 103. Nos dois recitativos Bach trabalha sem
melismas, mas as notas destacadas formam um relacionamento claro. O que
representa no primeiro recitativo em Sol menor a nota mais alta G4, agora, em
Lá menor, é o A3 do tenor. Ambas as notas visam ao o mais sublime, o nosso
Senhor. Talvez seja por acaso, que as palavras relacionadas com as notas
destacadas ficam mais o menos no mesmo lugar no decorrer do texto, mas por isso
a parecença dos dois recitativos é muito clara. Cada recitativo tem duas notas
destacadas, uma quase no início, outro no final.
Por causa das claves
diferentes a imagem das quatro notas na partitura é completamente idêntica, e
sabemos que os compositores da época barroca costumavam dar atenção à maneira
como a composição aparece na partitura.
Se comparar o A3 do
tenor com o G4 do soprano devemos considerar que o tom mais agudo para o
soprano cantado por um menino da escola de Bach é normalmente o G4,
correspondendo também visto desse ângulo com o A3 do tenor. Bach escreve o A4
para o solista do soprano só raramente, mais ou menos como o B3 ou Bb3 no
tenor, que é guardado para situações fora do comum. Normalmente o tom mais
agudo do soprano é o G4 e do tenor o A3, e também por isso os dois correspondem
tanto.
Essa atenção par aas
notas mais agudas e destacadas confirma também as conclusões a respeito do
terceiro tom destacado, no primeiro recitativo, com a palavra "Freude"
(alegria), em página 49.
A contraparte é formada
pelas palavras ''ich" (eu) e "Feinde" (inimigos). Na ária mais
otimista e esperançosa do contralto, que é o terceiro movimento da cantata, as palavras "ich" (eu) e
"Sodom" apresentam-se separadas e distantes, mas aqui as palavras ''ich"
(eu) e "Feinde" (inimigos) tem a mesma nota grave. (Entre as notas
destacadas, importantes ou acentuadas é a nota mais grave do movimento. Não se
levam em conta notas fugazes e sem acento como a anacruse grave em compasso 11
ou os tons graves nos compassos 2 e 15. Também no compasso 4 do recitativo do
soprano achamos uma nota grave, mas sem importância.)
mitgewertet werden, ähnlich wie das für den kurzen
54
Também algumas outras
palavras são ilustradas com figuras na música. A cruz aparece no primeiro
compasso com uma sétima em relação com o baixo. É uma dissonância que
representa o sofrimento, ainda mais porque é alcançada através de um salto.
Também a própria nota é portadora de uma cruz, já que o sustenido dela contêm
cruzes. Na
língua de Bach, o alemão, aquele sinal sustenido é chamado de cruz (Kreuz).
Além disso Bach forma
com as primeiras notas do próximo compasso um quiasmo, que simboliza a cruz.
"Plagen" (labuta) e "wein ich" (eu choro) e também
"Weltgetümmel" (tumulto terreal)
aparecem com parrhesias. "Weint" (chora) recebe ao contrário de "scheint"
(parece) uma suspiratio (suspiro musical). Mas esses afetos são fatos isolados
e meros enfeites e ilustrações da respectiva palavra e não têm consequências
para o decorrer da composição eine Suspiratio.
Interessante é também a
parrhesia em compasso 6,1, que não parece muito dura, mas antes suave. O Si
tende para cima e descreve a atitude das pessoas ("erwählten"), que
querem subir a Deus.
O empurrão necessário
que uma pessoa deve infligir a si mesma para proferir as palavras "Ich bin
bereit" (estou pronto) é exprimido pela exclamatio típica (Sexta menor em
compasso 1) e nos compassos 14 e 15 as notas desenham uma coroa na partitura.
Na escala entre tristeza
e alegria o movimento deve ser situado em um lugar intermediário. Nem uma, nem outra
prevalece. A tendência mais otimista no final vislumbra através
de trechos no gênero maior a partir do compasso 13, e pela tendência ascendente
da melodia, e ficaria totalmente clara se o organista tocasse um acorde maior
no final do movimento. Não consta da cifração, que encontramos com o baixo contínuo,
mas corresponderia a muitas obras de Bach e outros e à prática de um organista,
que está acostumado de acompanhar hinos nas igrejas.
55
Satisfação e alegria nos
últimos movimentos
Quando se menciona
alegria em poesias, literatura e outras artes cristãs tradicionais, não se
trata de uma alegria entusiástica como em uma festa de aniversário ou outro
divertimento mundano. Desde o início da cristandade aquela alegria desinibida é
considerada como mundana e denominada como “alegria pagã” (“heidnische
Freude”), que é uma gíria para uma alegria muito forte e exibida. Essa tendência à
seriedade está muito forte nas igrejas luteranas e reformadas (presbiterianas)
do norte da Europa.¹
Somente no fim do século
XX essa atitude começou a diminuir, assim como, em geral, as tradições e
atitudes cristãos se perdem aos poucos, e as igrejas neopentecostais em alguns
países fora da Europa chegam a incorporar sentimentos bem desinibidos em seus
cultos e vida diária.
Na Europa até hoje causa
certo constrangimento e timidez entre os fieis se um pastor pede para mostrar
verdadeira alegria por causa da ressurreição de Cristo ou outras ocasiões. Tal
alegria espontânea e ostentativa é alheia ao europeu do norte, seja por
influência das igrejas luteranas e reformadas, seja por causa do clima ou de
algo inata na raça nórdica, seja por outra influência. Se muito essa alegria
desembaraçada encontra-se por causas mundanas. Mas mesmo um fato como uma
competição de futebol ganha causa no norte da Europa reações bem mais
moderadas do que em muitos outros países.
Não da para estranhar
que diante de tal tradição os textos das cantatas se referem à alegria nunca
sem lembrar do sofrimento, morte e tristeza sempre presentes, seja patentes ou
latentes. Por isso podemos chamar esta alegria, que resulta do consolo no
sofrimento e não é só divertimento puro e solto, de satisfação. Tem a ver com
resignar-se com uma situação e aceitá-la. Também a perspectiva de uma vida
melhor no futuro e da vitória sobre outros, que agora têm mais sucesso do que
eu, mas que um dia perderão tudo enquanto eu vou receber meu galardão no céu,
podem causar tal satisfação, embora que este cálculo nem combina bem com o
verdadeiro amor cristão ao próximo.
Na Cantata 12 Bach
permanece nessa moderação assim como esperamos através da análise do texto. A
alegria não irrompe clamorosa e abertamente, mas continua sempre arraigada na
razão oriunda da esperança e firmeza na fé.
__________________________________________
¹ Por isso se fala na Alemanha: Ele se alegrou como um pagão. Quem fala
assim acha que normalmente um cristão não iria se divertir de uma maneira
desinibida como um pagão. Assim como o cristão sofreia os sentimentos como
sofreguidão, lascívia, raiva e outros, também é moderado na alegria.
56
A sucessão na fé, seja
no bem, seja na desgraça levando a cruz, é tema da ária do baixo. O solista não
figura Cristo, mas representa o cristão crente em geral, assim como em várias
outras cantatas.¹ Pela certeza de sua fé ele confessa seu Senhor Jesus. Vira
assim quase uma quarta pessoa que se ajunta ao Deus triúno, simbolizado pelas
três vozes canônicas da orquestra. A firmeza e convicção nobre é caraterizada
pela voz de baixo grave e firme, e também por um indício mais escondido: o tema
das três vozes canônicas da orquestra é formado do hino "Was Gott tut, das
ist wohlgetan" (O que Deus faz, ele faz bem).
Citações dessa maneira,
que citam só poucas notas e muitas vezes com mudanças na melodia ou no ritmo,
acham-se frequentemente nas obras de Bach. Nem sempre podemos ter a certeza se
certa frase é uma citação ou uma semelhança ocasional, já que existem centenas
de melodias de hinos.²
Nesse caso, no entanto,
a menção desse hino calha bem na lógica do enredo, e o mesmo hino é usado
também como hino final. Assim como em outras cantatas, onde um instrumento toca
um hino verso por verso durante uma ária, e depois o mesmo hino está cantado no
final, podemos supor uma antecipação consciente da melodia. Com a citação Bach
confirma a atitude do cristão, que segue ao Senhor na certeza de que tudo, que
Ele lhe faz, seja no sofrimento, seja na alegria, serve para o seu bem.
Também o tema da famosa
ária do soprano "Ich folge dir gleichfalls" (Te sigo também) da
Paixão de São João apresenta essa semelhança. As primeiras seis notas são
idênticas com as do hino e como as de nossa ária. Mas enquanto o soprano
irradia pelo timbre de sua voz, pelas coloraturas e pelo caráter da tonalidade Bb
um regozijo mais claro, a nossa ária permanece na firmeza tranquila da
tonalidade Mib, o tom que emoldura com o Prelúdio e a Fuga tríplice em Mib a
Grande Missa para órgão³ (“Große Orgelmesse” ou “Grosse Orgelmesse”) que é uma
confissão de fé ou catecismo em notas musicais, sublimando destarte a fé cristã em grandeza majestosa, mas com
serenidade e calma.Katechismuçs besingende Große
Orgelmesse umklammert und in majestätischer Größe, aber doch ruhiger
Gelassenheit, preist.
_________________________________________________________
¹ No Oratório de Natal
de Bach o baixo apresenta na ária (movimento 8) o crente adorador, que como um
rei ou cavaleiro nobre, se ajunta ao seu Senhor com certo orgulho e grandeza.
Tal caráter e atitude achamos nas obras de Bach antes com baixos do que com
tenores.
² Outro exemplo que
mostra a falta de certeza na busca e interpretação de tais citações é o hino „Ó
fronte ensanguentada“ ("0 Haupt voll Blut und Wunden"), citado no
Cravo Bemtemperado (Wohltemperiertes Klavier), tomo 2, primeiro prelúdio em C,
compasso 23.
³ Missa, em
latim, é culto. A palavra missa não é limitada ao catolicismo.
57
Desde o início as vozes
entram uma imediatamente após a outra. O seguimento acontece pertíssimo ao
anterior, uma sucessão apertada, quase como pisar nas próprias pegadas do
antecessor.¹
Excepcionalmente não se
conclui com um da-capo, mas este só aparece em um fragmento: o baixo canta uma
vez o tema, puxando-o a partir da quinta para cima, seguindo a escala, até a
oitava. De novo a oitava é o símbolo para o entrar ao reino dos céus, ao
unir-se a Deus. A importância da escala já fica clara pelo fato de que o baixo
contínuo abandona a sua independência e se ajunta em uníssono ao solista. As
outras duas vozes continuam livres, mas o solista perde a sua independência e
vira um com seu Senhor e Pai.
O movimento tem
exatamente 40 compassos. 4 visa ao homem, ao "ich" (eu), que é a
primeira palavra da estrofe. Com isso pode se supor que também a quarta no
início pretende ser outra forma de propagar 4, assim Andreas Werckmeister interpreta
os números.² 40 é também o número do esperar, porque 40 anos o povo de Israel
esperava no deserto e nós esperamos 40 dias até a Páscoa. Pode ser por isso,
que Bach quer incentivar para sermos pacientes, porque a paciência é também
tema no próximo movimento.
A próxima ária recai no
gênero menor. Apesar de Mattheson descrever o Sol Menor como muito bonito e um
refrigério achamos esse tom também em muitas músicas tristes como o coro
inicial da Cantata 103. Já na Fantasia e Fuga em Sol Menor para órgão a tonalidade
parece forte e imponente.
Nossa ária o tenor se detém com melismas em palavras como
„treu“ (fiel) e „Pein“ (agonia, sofrimento), que formam um quadro de relações
caraterísticas entre si. A instrumentação é
escassa, somente o baixo contínuo acompanha o solista. Porém, de vez em quando
entra um trompete, o instrumento dos reis, e declama verso por verso o hino
„Jesu, meine Freude“(Jesus, minha alegria), cujo texto (aqui implícito) conta
da alegria de estar com Jesus e da aflição da longa espera a essa reunião. "Jesu,
meine Freude" vorträgt. Der Takt hat 3,4 und trägt zusammen mit den
_____________________________________________________________
¹ Veja também Arnold
Schering: Bach und das Symbol (Bach e o símbolo). Bach-Jahrbuch 1925, p. 45
² Mais em A.
Werckmeister: Harmonogia Musica, Halberstadt 1702 e Musicalische
Paradoxal-Discourse (discursos musicais paradoxais), Quedlinburg 1707
³ Este hino fornece
também o texto para o moteto “Jesu, meine Freude”, junto com algumas citações
da Bíblia. Em sites
e livros sobre essa Cantata acham-se também traduções.
58
O compasso de 3/4 contribui
em conjunto com o „ritmo da bem-aventurança“ (Seligkeitsrhythmen) no baixo¹ para um clima
feliz e animado. Considerando todos os fatores o resultado fica novamente não
muito claro. De qualquer forma não podemos falar de alegria pura.
A segunda parte é um
pouco mais animada, correspondendo ao texto "nach dem Regen blüht der
Segen, alles Wetter geht vorbei" (depois da chuva floresce a bênção, toda
a tempestade passa). Não tendo da-capo essa impressão mais otimista termina o
movimento. (Neste caso não pode ter o da-capo, já que o "Jesu, meine
Freude" está entrelaçado na composição, e este não combina com a forma A-B-A.)
Este hino prova que a
nossa interpretação é certa, porque ele diz claramente na última estrofe que
apesar de todo o sofrimento temos a alegria em Jesus. Mas a palavra “apesar”
mitiga a alegria e corta o entusiasmo irradiante.²
O número de compassos é
66. A um lado é a duplicação 33, que alui ao Deus triúno e à idade de Jesus. Ao
outro lado está constituído do dígito controverso 6, que, às vezes, simboliza a
perfeição, mas contém também forças destruidoras³, sobretudo na combinação 66,
que lembra o 666 da Apocalipse, 13.18. 66 liga, desta maneira, o céu e a terra4,
uma qualidade que calha bem com o conteúdo da ária. 66 é também o valor
numérico da primeira palavra da cantata inteira "Weinen", mas não
veja uma relação com o contexto neste movimento. Deve se tratar, neste caso, de uma mera
coincidência.
______________________________________________________________
¹ Veja.Schweizer p. 489
² Susanne Schöneweiß liga
a melodia em sua tese (Harnburg, 1986) logo com a última estrofe, mas não
fornece argumentos. De qualquer forma, assim a primeira estrofe como a última
cabem bem, e também o conteúdo geral de todas as estrofes.
³ Hertha Kluge-Kahn: Johann Sebastian Bach: Die
verschlüsselten theologischen Aussagen in seinem Spätwerk, Möseler Verlag, Wolfenbüttel und Zürich 1985,
p. 158
4 Ibidem p. 70
59
Agora contemplamos a Cantata 103. Esperamos
na última ária antes do hino final um clima positivo, conforme a análise do
texto que começa na simples satisfação e chega até o verdadeiro regozijo. A
satisfação resulta da conclusão de que a pena não vale a pena, porque quem fica
triste machuca a si mesmo. Esse raciocínio ainda fica longe de uma alegria
verdadeira, mas despede já os pensamentos tristes.
Porém, Bach decide-se
desde o início por uma alegria indisfarçada. O ritornelo (refrão) da orquestra constitui-se
de Cortas, os ritmos de alegria típicos que marcam uma alegria clara e natural.¹
O tom Ré Maior liga a ária com muitas outras peças com qualidades parecidas,
muitas vezes também enfeitadas com trompetes, como o famoso Aleluia do Messias
de Händel e muitas partes do Oratório de Natal de Bach. Schweizer chama as figuras
nessa ária, sobretudo as do baixo contínuo, „besonders freudig, ja geradezu
überschwänglich” (particularmente alegres, até mesmo transbordantes).²
Porém, já no segundo
verso do solista tenor intrometem-se notas e figuras, que arrefecem essa
alegria. Com o texto "ihr thut euch selber allzu weh" (vocês mesmos
se causam muitas dores) a nota Dó aparece de repente e com ela o primeiro
suspiro se destaca fortemente. Os ritmos da alegria desaparecem aos poucos,
somente o baixo continuo rema desesperadamente contra o maré e parece levado
para cá e para lá sob impacto dos sentimentos. Seguem-se parrhesias e um trítono
destacado como Saltus duriusculus em compasso 13 no primeiro violino. Claro que
Bach muda aqui para o gênero menor.
Mas a alegria volta, e
no decorrer encontramos belos melismas com a palavra "Freude" (alegria).
O melisma mais impressionante é o mais longo, que se estende do compasso 46 até
53 e lembra ao melisma com a mesma palavra no Oratório de Natal, que também é
cantado por um tenor.³
Também aqui aparece o
número de compassos 66, que estabelece a ligação da humanidade com a divindade.
_______________________________________________________________
¹ Veja também Schweizer
p. 498
²
p. 501 s
60
Constatamos nesta ária novamente
uma excelente concordância entre texto e música. O tema geral da música é a própria
alegria. Certas infiltrações turvas são clareadas pelo
transbordante no baixo contínuo. Por isso, em soma, podemos situar a música
claramente na seção alegria; a música talvez até sobrepuje nisso o texto.
Na Cantata 146 tivemos
depois da avaliação to texto duas opiniões diferentes (veja página 18). A
decisão de Bach é claramente a favor da versão mais otimista. Com a tonalidade
Fá Maior escolhe o tom mais otimista de todos os tons possíveis, visto que o
ponto de partida foi o Sol Menor do primeiro movimento. A melodia é simples e
lembra as fanfarras de trompetes e trompas. Também a harmônica é sem
complicações, não se encontram figuras carregadas de afetos. Dentro do tema
achamos Cortas declamando a alegria nitidamente. Bem destacada ela aparece a
partir do compasso 9, quando violinos e violas começam juntos com uma Corta,
que forma o começo de um motivo ascendente.
O mesmo elemento
musical, então essa corta, o elemento da alegria tão caraterístico, encontramos
nas três cantatas muitas vezes, por exemplo no coral inicial da Cantata 103. Mas
agora a alegria irrompe sem impedimentos, em sua forma mais pura, e brilha em
sua natureza franca e sublime, porque o ritmo coincide com o gênero maior, e
não com o menor como naquele coro. A partir do compasso 16 a Corta está
interligada com uma Exclamátio, que impulsa a música como um júbilo súbito e
desinibido, e esta dispara e desemboca em uma escala veloz de fusas, que
associam uma virada forte e cheia de emoções para Deus.
Quando depois o solista
entra, a Corta permanece no primeiro plano. Os violinos arremessam-na com força
homófona e concentrada para dentro da enxurrada musical, enquanto os cantores emulam
neste tema inicial dançante e enfeitado por uma Corta, sobem em guinadas
canônicas e reúnem-se nisso aos instrumentos. Bach sente essa alegria como
regozijo real. Meu aparte de que o texto não seria tão transbordante, porque a
felicidade não é prometida para agora, mas somente para a vida da alma depois
da morte, não preocupa Bach. Ele não deixa a alma jubilar, que seria um
soprano, mas dois homens de carne e sangue (tenor e baixo).
Contudo, o sofrimento e
os inimigos, dos quais a cantata trata por longos trechos, deixam-nos
descambando e despencam logo para o inferno e ficam lá, separados e longe dos
cristãos exultantes. Por isso as correrias e escalas velozes para baixo neste
trecho, marcados pelo baixo contínuo, que parecem quase um escorregador.¹
Dah
________________________________________________________________
¹ Compare a ária do
baixo "Stürze
zu Boden, schwülstige Stolze"
(Cai por terra, sua orgulhosa inflada) da Cantata 126 "Erhalt uns Herr bei
deinem Wort" , em que o baixo contínuo executa figuras semelhantes. (veja também Schweizer p.
474)
61
Na parte média suaviza-se
o júbilo desenfreado, que pela sua desinibição quase parece mundano, os
instrumentos agudos emudecem e só o baixo contínuo permanece. Mas a serenidade continua, e o júbilo mais
suave parece celestial e transfigurado, não mais apegado à terra: Eu (“ich”)
mesmo “brilho como as estrelas e resplandeço como o sol” "glänz ich wie Sterne und leuchte wie
Sonne" e não preciso mais do brilho dos instrumentos, assim como um anjo
ou um ser humano transformado em um ser celestial não necessita mais do brilho
exterior como roupas esplêndidas e a otras coisas terrenas, e eu sinto o gozo
dos céus.
Se eu ("ich")
friso que não ouço „nem tristeza, nem uivar, nem gritaria“ („kein Trauern,
Heulen, kein Geschrei“), Bach aproveita a menção dessas palavras negativas para
compor um pouco de cromática, uma parrhesia e uns suspiros suaves, que, porém,
são todos tão leves e dóceis que não conseguem abalar a felicidade. Parecem
meras lembranças efêmeros de um passado duro, resquícios de uma memoria que já
se perde, mas que evocam uma sentimentalidade doce e transfigurada.
Com o da-capo volta o
júbilo solto do início, neste caso fazendo todo o sentido no enredo, que
continua e leva o ouvinte até o hino final do coro.
O número de compassos é 246
e não parece ser produto de uma concepção arquitetônica, já que nesta cantata
também não ocorrem outros números significativos que suscitariam a suspeita de
acharmos numerologia nesta cantata. 246 seria a duplicação de 123, que contém
os primeiros três números e simboliza assim uma perfeição. A adição e a
multiplicação desses três números resultam no mesmo valor.
Com a interpretação do texto Bach fica sem dúvida do lado
deles que lhe atestaram grande alegria, apesar de minhas dúvidas iniciais. Certamente Bach parte da convicção de que para um crente forte a
mensagem salvadora é tão convincente que ele se vira totalmente para o além, e por isso o
sofrimento do mundo não mais o afeta. O crente verdadeiro como parte da
„comunhão dos santos“¹ está sempre repleto de louvor, mesmo nas tribulações e
até no martírio.
Wohlstandsländern oder das römische Reich etwa ab der Zeiten
_______________________________________________________________
¹ Veja, por ex., o Salmo 149.1, que Bach compus em seu
grande moteto "Singet dem Herrn" (Cantai ao Senhor)
62
Essa atitude encontra-se
tanto mais quanto mais simples e desempenhado for o estilo de vida dos seres
humanos. As sociedades consideradas mais desenvolvidas e mais civilizadas como
as de países ricos de nosso século ou do Império Romano, bizantino ou otomano
durante e a partir do auge de seu poder são cada vez mais crivados de pessoas
totalmente apegadas à comodidade, e estas resmungam e lamentam por causa de
qualquer dificuldade minúscula, que lhes apresenta a vida, e chegam até a
virarem amargas e a cometer suicídio. São incapazes de lidar com revezes e
dificuldades.
A feminista H.Matilda
Meta de Wilka¹ alega que por isso pessoas, que realmente vivem na miséria,
dificilmente se opõem contra as causas e causadores de seu sofrimento, ao
contrário de pessoas que vivem bem mas vivem o princípio de reclamar de tudo.²
Wolfgang Böhme mostra em
seu discurso "J.S. Bach: Prediger in Tönen"³ (J.S.Bach: Predicador em
notas musicais), que o cristão em sua vida sempre está assim no sofrimento como
na alegria, porque está no caminho, que leva à felicidade eterna, mas está
ainda na terra com todos os seus sofrimentos e aflições.
Além disso, Bach parece
que ama o desafio do contraste. Certamente é algo comum a muitos artistas, mas
nas obras de Bach pode se reconhecer essa antinomia com mais destaque do que em
muitos outros casos. Por exemplo, no Orgelbüchlein (Livrinho para órgão)
encontramos muitos hinos de Natal. Um dos mais alegres é "In dulci jubilo" (latim: Em doce
júbilo). Ele descreve uma alegria tranquila e doce, uma felicidade bem por
dentro do âmago. Essa felicidade empalidece diante da alegria extática do hino
"In dir ist Freude in allem Leide" (Em Ti está a alegria, em todo o
sofrimento), que exprime exatamente o que foi dito há pouco.4
____________________________________________________________
¹ Ela virou famosa pela
frase: Todas als mulheres se alistariam no exército se pudessem começar logo
como sargento..
² Veja H. Matilda Meta
de Wilka: “Azar, azedume e o sacudir desses”, Curitiba, 1991
³ Em Herrenalber Texte 64, Karlsruhe, 1985, p. 102s
4
Também os hinos "Wer nur den 1ieben Gott läßt walten" (Quem deixa o
Deus amado agir) e "Jesu, meine Freude" (Jesus, minha alegria,
compare sobre este hino as páginas 57 e 58), que ambos tratam de paciência e
confiança em Deus, apresentam uma alegria aberta, e isso apesar do gênero menor
das duas melodias originais.
63
A verdadeira alegria
resulta do sofrimento e destaca se em contraste a ele.¹ Esta é também a origem
de toda a alegria pascoal, que é descrita, por exemplo, no hino para órgão Orgelchoral
"Erschienen ist der herrlich Tag".
As palavras de Georges Beyron sobre
este hino pascoal valem plenamente também para essa ária. Valem até mais,
porque o nosso exemplo fica no gênero maior e vira assim ainda mais excitado, e
elas mostram mais uma vez a universalidade da linguagem musical do mestre. Beyron
escreveu em „La symbolique musicale de J.S. Bach, au miroir des choral's de
l'Orgelbüchlein“ (Positiones lutheriennes, anuário 33, 1985, p. 86):
" Dans le choral 31 nous avons une tout autre atmosphere...cellulles
anapestiquesl signes de joie, qui marchant parallelement a la tierce ou
a la sixtel e qui eclatent litteralement en um Alleluia triomphal les dernieres
mesures. Cést une atmosphere de victoire." ²
______________________________________________________________
¹ O contraste na arte
serve desde o início para destacar o bem do mal e para revelar as virtudes. Já
no antigo romance „Sapientia“ de Roswitha von Gandersheim. Gandersheim,
Alemanha, por volta do ano 940, este princípio leva a cenas cruéis e até
perversos e pornográficos para que as virtudes se destacarem mais.
² Tradução: A simbólica
musical nos hinos de J.S.Bach, ou o espelho dos hinos Orgelbüchlein (Livrinho para órgão) (Posições
Luteranas, anuário 33, 1985 p. 86):" No hino 31 de coral, temos uma
atmosfera toda diferente ... unidades anapésticas como sinais de alegria, que
marcham paralelamente em terças ou sextas e que literamente irrompem nos
últimos compassos em um Aleluia triunfal. É uma atmosfera de vitória. (Hino de
igreja, em francês ou alemão, é choral)
64
Os hinos finais
No hino final resume-se
mais uma vez todo o sentido da cantata. É a contraparte da palavra bíblica
inicial, e lhes é comum que o texto não é do poeta que escreveu a cantata. Eles são escolhidos e ajuntados como uma citação de outra fonte.
Sob certos aspectos o
hino final é tratado como uma palavra bíblica. Uma cantata sobre um hino como a
cantata “Louva ao senhor potentíssimo“ prescindem de uma palavra bíblica na
maneira das outras cantatas, e hinos podem servir também como texto para um
sermão, em lugar de um trecho da Bíblia.
Isso não é muito
incomum, já que muitas igrejas permitem também que os pregadores escolham
outros textos fora da Bíblia como palavras de santos, fundadores de igrejas
etc.¹ Estes textos não têm o mesmo
nomeado como a Bíblia, a não ser que uma igreja contribui ao seu santo,
fundador ou profeta tanto prestígio como por exemplo o fazem os mórmons², mas
eles são considerados textos sacros pelo prestígio que se atribui aos autores,
seja por uma santificação oficial, seja pela ideia da infalibilidade que é atribuída
ao papa católico e a profetas e fundadores de certas igrejas evangélicas
particulares. Também existem pessoas que desfrutam de uma alta valorização em
várias igrejas, como, por exemplo, o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, e por
isso estão em alto prestígio.
O mesmo vale para hinos
das igrejas, embora que também neles encontram-se textos mais rasos e sem
inspiração.
Mas na prática existe
uma grande diferença. O texto bíblico existe antes da cantata. Quem quer
escrever uma cantata sobre o domingo Jubilate, lê os textos bíblicos deste
domingo e escolhe uma passagem como lema da cantata. O texto bíblico é
escolhido antes e os textos livres são escritos assim que calhem bem no
contexto da palavra bíblica. Este trecho aparece bem no início da cantata como
palavra bíblica, em um recitativo, arioso ou coro.
Já o hino final é
escolhido para concluí-la, geralmente depois de escrever a cantata. Geralmente
toda a cantata já está pronta, e o autor do texto ou o compositor procuram uma
estrofe de um hino, que melhor se encaixe no enredo.
_________________________________________________________
¹ Por exemplo, em muitas
igrejas católicas é comum que os noivos podem escolher uma palavra Ernesto
Cardenal ou outros poetas religiosos de hoje para o seu casamento.
² Eles ensinam que ainda
hoje vivem profetas que anunciam a palavra de Deus assim como na época bíblica,
da maneira de que o que estes profetizam é considerada lei divina para a
igreja. O fundador da igreja dos mórmons (Santos dos últimos dias) publicou um
livro, o Livro Mórmon, que lhes é santo igual a Bíblia.
65
Esta é a dificuldade. Se
não existir uma estrofe com um texto exatamente visando ao tema central ou a
conclusão final da cantata, deve ser escolhido uma estrofe que combina melhor
entre todas disponíveis. Não é costume de o autor da cantata escrever uma
estrofe ele mesmo.
Na Cantata 12 o hino
final concorda belamente com o enredo e continua sem ruptura o que os dois
movimentos anteriores preparam. O caráter otimista da melodia do fim do século
XVII, que exprime firmeza na fé, permanece também na composição a quatro vozes
muito firme e homófono. Somente à palavra "väterlich" (paternal)
ligam-se colcheias macias descendentes cantadas pelo tenor.
O espírito belo e
positivo do texto é valorizado pela sobrevoz, que pode ser executada também por
uma trombeta.
Bach trabalha nessa
cantata também com o significado dos números. Vimos vários exemplos nos
movimentos anteriores. Um número significativo pode ser coincidência, mas a
frequência e soma deles todos mostra que alguém os escolheu de propósito. Mas o
número de compassos de um hino final é normalmente fixo e poderia ser mudado
somente quando se muda o tipo de compasso, mas dificilmente se chega assim ao
valor pretendido.
Resta como outro meio o
número das notas, seja do soprano ou seja de todas as vozes. O número das notas
do soprano é definida pela melodia tradicional do hino, mas Bach pode
aumentá-lo se compor algumas colcheias de ligação a mais, como é o estilo dele
também em outros hinos. Mas o aumento teria limites, ao máximo chegaria mais ou
menos ao dobro das notas do original.
Já
o número total das quatro vozes cantadas mais da sobrevoz tem uma margem de
variação maior. Pelo fato de ter escolhido uma sobrevoz Bach aumenta o número
de vez, e para acertar exatamente o número desejado ele pode adicionar ou
eliminar colcheias e semicolcheias, com que ele costuma enriquecer as vozes. Assim
Bach chegou a 224 notas, a duplicação de 112, o número de CHRISTUS (3 + 8 + 17 + 9 + 18 + 19 + 20 + 18).¹ Com
esse aviso Bach confirma que alcançamos o alvo da viagem, o Cristo, o Salvador.
Seguíamos-lhe na ária do baixo, tomavamos a resolução firme de sermos-lhe fieis
na ária do tenor, e chegamos agora em seus braços, e nisso Deus e Cristo é o
mesmo, não faz diferença que antes falavam de Cristo e agora, no hino, de
Deus.²
_________________________________________________________
¹ Para quem estiver sem
conhecimento na matéria seja explicado que a base da numerologia na Europa é o
alfabeto latino, que tem 24 letras, o J
era ainda desconhecida, em lugar dele usava-se a letra I. Se nas línguas
modernas ocorre uma letra J, ela é contada como a letra I e vale então 9. K
vale 10, L vale 11 etc. U e V são também ainda a mesma letra e valem 20. I und J = 9 rechnet, K erhält 10 usw. Christus
é em alemão e também em latim o nome de Cristo.
² Se Bach ou Franck tivessem
insistido na palavra "Gott" (Deus) em lugar de "Jesus",
teriam tido que escolher uma outra estrofe de hino que talvez não se encaixasse
tão bem no texto.Parece que usavam Deus e Jesus como sinónimos, em conformidade
com a teologia evangélica como também católica.
66
12 é também um número da
igreja, porque ele fica pelos doze apóstolos ou discípulos. Com este
significado encontra-se no coro inicial desta cantata, onde os cristãos
santificados carregam a cruz, o sinal de Jesus ("das Zeichen Jesu").
Já neste lugar ele fica em lugar de todos os verdadeiros cristãos, que todos
carregam o sinal de Jesus. Estes cristãos agora são ligados com Deus. O número
1, que significa Deus, liga-se ao 12 e vira 112. 112, por sua vez, é também Cristo. 112 diz então: “Em Cristo somos ligados com Deus” (“em 112 são ligados
12 e 1”).
Que simbólica forte e emocionante!
E isso em uma obra dos primeiros anos do compositor, embora que se aprende que Bach
aplicava a numerologia somente nas obras dos últimos anos de sua vida. E com esta simbólica
termina essa canta impressionante.
O hino final da Cantata
103 contém 247 notas, o que não deixa pensar em Bach ter aplicado numerologia.
O número de compassos é 12, o que combina bem com o número 12 da Cantata 12,
mas este número não é obra de Bach.
A melodia é do hino "Was
mein Gott will, das g'scheh allzeit" (O que meu Deus quer, aconteça sempre
ou O que meu Deus quer, seja feita sempre), o texto é de Alberto, Duque da
Prússia,¹ que foi o último grão-mestre da Ordem Teutônica, uma ordem de
cavaleiros alemães, que não somente agiam no Israel, mas também na Prússia, onde
tribos cristãs pediram por ajuda contra tribos pagãos. Prussia virou um estado
sob tutela da ordem, mas no início do século XVI Alberto aderiu à reforma
luterana, e com isso também a ordem acabou de existir e o território dele virou
o Ducado da
Prússia. É um hino que exprime confiança em Deus e consolo e prontidão de aceitar
e levar a cruz. O conteúdo é muito perto do hino final da Cantata 12. A melodia
em si exprime força de carater e esperança e combina idealmente com o texto. Por
essas qualidades a melodia foi também usada para outros textos semelhantes nos
hinários.² Por isso a melodia era conhecida e despertava os sentimentos consentâneos.
Hoje ela é ainda cantada econhecida entre os luteranos do Norte da Europa.
Bach usa o hino "Was
mein Gott will" na Paixão de Mateus depois da famosa palavra de Jesus "Mein
Vater, ist's nicht möglich, dass dieser Kelch von mir gehe, ich trinke ihn
denn, so geschehe dein Wille" (Meu pai, se não for possível que esse cálice
passe, eu o beberei, assim a tua vontade seja feita; ou, literalmente: assim
aconteça a tua vontade). Depois dessa prova de obediência absoluta o recitativo
para e no meio do constrangimento dos ouvintes pela situação soturna o coral
entra com as palavras e canto firmes: O que meu pai quer, aconteça sempre.
__________________________________________________________
¹ Também conhecido como Albrecht, der Ältere (Alberto, o mais velho) e Albrecht
von Hohenzollern, ou, na Polônia, como Albrecht Hohenzollern.
² No Hinário da Igrejas Evangélicas da Alemanha encontram-se "Wer
Gott vertraut hat wohl gebaut" (Quem confia em Deus constrói bem) e "Wie'
s Gott gefällt, so gefällt's auch mir" (O que agrada a Deus, agrada também
a mim), ambos do século XVI.
67
Uma comparação das duas
versões revela que Bach acha também em um simples hino meios de impressão e
interpretação: Nos compassos 3 e 4 a palavra "verlassen" (abandonado)
traz dissonâncias notáveis, todo ao contrário das colcheias macias no mesmo
lugar na versão da Paixão de Mateus. Macio parece, por sua vez, o compasso 3.1,
onde na Paixão um acorde firme figura a vontade de Deus. A flagelação na Paixão
com as palavras "züchtiget mit Maßen" (flagela com moderação), que o
tenor e, em partes, o contralto descrevem nitidamente, falta na cantata, mas nesta
o baixo pinta uma bela figura que provavelmente descreve o ato do "Aufsetzen"
(pôr) da coroa. Uma Corta bem destacada em compasso 5 no soprano e outra no
penúltimo compasso no contralto sublinham o caráter alegre, ao contrário à
versão da Paixão. A palavra "Wohl" (bem) causa está última Corta,
enquanto a Corta em compasso 5 tem sua origem na alegria e emoção sentidas na
pronúncia da palavra "dir" (a
Ti ou para Ti).¹
Durante a palavra
"Freudenkron" (coroa da alegria ou coroa pela alegria) o baixo sobe,
querendo alcançar a alegria que está lá em cima com Deus, assim como o vimos em
outros lugares semelhantes nas árias e recitativos. A figura do contralto no
quarto compasso antes do fim poderia ter a mesma função.
No ano 1724 a
congregação de Leipzig já ouvira na festa da Epifania, no dia 6 de janeiro,
então três meses antes do domingo Jubilate, na cantata "Sie werden aus Saba kommen" um hino
final com a mesma melodia.² A comparação das duas confirma também a importância
do acorde em Fá♯ em compasso 3.1.
Embora que o hino nesta
versão perca um pouco da sua confissão de fé heróica e de sua força originária,
por causa da dominância dos melismas macios, também este hino pertence
claramente pelo seu texto à temática típica da melodia: Confiança em Deus,
também sob a cruz e na miséria.
Em
resumo podemos constatar que a alegria reina no hino final da Cantata 103 como
princípio geral, e Bach mostra-a tão claramente dentro das possibilidades de um
hino simples.
_______________________________
¹ Também aqui uma
comparação com outras obras corrobora a certeza de nossa interpretação. Cortas encontram-se ligadas a pronomes pessoais
ou possessivos, que se referem a Deus ou Jesus ou ligam o homem com eles:
Paixão de Mateus, ária "Ich will bei
meinem Jesus wachen", Cantata 21
"Ich hatte viel Bekümmernis" no recitativo "Ach
Jesu, meine Ruh" e na ária "Komm,
mein Jesus, und erquicke" e ibidem
em compasso 8 com "meinem"
(meu), compasso 18, 24 e outros com "du" (tu), Cantata 68, no recitativo
"Ich bin mit Petro" compasso 4 com "mein Jesus" (meu
Jesus), entre outros.)
² Este teve na melodia um
melisma na anteantepenúltima sílaba antes da repetição, enquanto a versão dos
hinários de hoje traz um melisma na penúltima sílaba antes da repetição.
68
O hino final da Cantata
146 foi preservado sem texto, o que deu origem a múltiplas especulações. A
melodia é do hino "Werde munter, mein
Gemüte" (Levanta-te, minha alma, ou: desperta, meu espírito), porém na
cantata a melodia aparece um pouco diferente em relação à versão conhecida hoje
nos hinários. O uso da época
corresponde mais com a forma da Cantata 146, mas apresenta várias formas. Na Paixão de Lucas de Bach, que provavelmente não é uma composição
autêntica dele, o hino se encontra com o "Stille, Stille heißt die Losung
der Gottlosen in der Welt". Aqui faltam em relação à cantata só as duas
cortas e o salto tipicamente barroco para baixo no penúltimo compasso. O uso
das duas cortas prova a alegria geral do hino. A ela o texto perdido deveria
fazer jus.¹
Algumas propostas para
substituir a falta do texto foram já apresentadas no capítulo sobre os textos
das cantatas (página 15). O texto proposto de Neumann "Ach, ich habe schon
erblicket" exige uma nota a menos no antepenúltimo compasso. Além disso, palavras importantes como "steh da vor Gottes
Thron" (fico diante do trono de Deus) e depois "Freude" (alegria)
não deixam vestígios na música. Neumann alega que na época o texto teria sido
cantado com essa melodia, mas Bach usa no Orgelbüchlein com a primeira estrofe
do hino "Alle Menschen müssen sterben" uma melodia diferente. Além
disso, o mesmo texto encontra-se como hino final já na Cantata 162, com outra
melodia e com uma Corta com a "erblicket" (vi), o que corresponde à
antecipação do sentimento alegre no hino final da Cantata 103 (compasso 5). Também
a respeito do movimento das colcheias a composição não acompanha o texto assim,
como se o espera em músicas de Bach.
Pior ainda é a
concordância com o texto de Peters, a segunda estrofe de “Werde munter, mein
Gemüte". A "Barmherzigkeit" cairia na Corta o que não faz
sentido, porque uma palavra como Barmherzigkeit (misericórdia) deve ser
composta com colcheias em curvas macias ou simplesmente com semínimas e uma
cadência amena, seja com subdominante, seja com dominante da dominante. E a
Corta de compasso 8 cairia absurdamente em "Sünde" (pecado)! Se procurar
o texto neste hino deveria pelo menos escolher a oitava estrofe "0 du
großer Gott, erhöre" O baixo firme nos últimos dois compassos iria
confirmar o “Amen” (Assim seja).
Ainda
melhor seria a primeira estrofe de "Freu dich sehr,
o meine Seele und vergiß all Not und Qual" (Regozije muito, ó minha
alma, e esqueça toda miséria e aflição²) (EKG.319,EG
524). A cromática do compasso 5 combina
bem com a palavra "Trübsal"
________
_______________________________________
¹ Bach usa a mesma
melodia também na Cantata 147 na famosa versão “Jesus, alegria dos homens”.
Mais exemplos veja no site Bach Cantatas Website.
² Texto e tradução
completa: Freu' dich sehr, o meine Seele!/ Und vergiß all' Noth und Qual,/ Weil dich nun
Christus, dein Herre,/ Ruft aus diesem Jammerthal:/ Aus Trübsal und großem Leid
/Sollt du fahren in die Freud',/ Die kein Ohr jemals gehöret/ Und in Ewigkeit
auch währet. (Regozija, ó minh`alma/ e esqueça toda miséria e
aflição./ Porque agora Cristo, teu Senhor,/ te evoca (chama para sair) deste
vale de lástimas./ Da soturnidade e grande sofrimento/ terás que viajar para a
alegria/ que jamais foi ouvido por orelha nenhuma/ e demora até a eternidade.
69
(soturnidade, tristeza)
e em compasso 8 a palavra "Freud" cai também em um lugar muito
conveniente. Em compasso 7 a palavra "fahren" (andar em um veículo)
combina com a linha do baixo, embora que eu esperasse neste caso também em
compasso 8,1 duas colcheias. Estranha seria a Corta em compasso 4, que
acompanharia a palavra „Not“ (miséria). Esta palavra negativa aparece com uma
negação, o contexto é então positivo, sem miséria. Mas o costume de Bach é
compor as palavras em tais contextos no sentido original. Por isso, para ser
exato no contexto histórico, não deveria ter essa Corta.
Também a última estrofe
deste hino calharia bem. Neste caso as colcheias ondeadas poderiam esboçar os
anjos.¹ "Freu dich sehr, o meine Seele"² era um hino muito conhecido na época de Bach e
talvez pudesse ser cantado pelo coro sem texto, só com as notas na mão, se
talvez faltasse o tempo para copiar os textos. Ele repercute o tema da cantata,
traçando a trajetória da soturnidade e aflição até a alegria ("aus Trübsal
und großem Leid...in die Freud") e combina assim também idealmente com o
evangelho do domingo Jubilate.
Para esta proposta a
última nota da partitura deve servir para duas sílabas, teria que ser dividida.
Mas uma solução sem mudança de nota alguma não existe dentro do estilo desse
hino, já que a rima acontece entre o último compasso e o antepenúltimo. Um
coral hábil teria executado isso naturalmente sem nem o maestro falar.³
O texto da proposta de
Wustmann é o seguinte:
Denn wer selig dahin fähret,
Da kein Tod mehr klopfet an:
Dem ist alles wohl gewähret,
was er ihm nur wünschen kann.
Er ist in der festen Stadt,
da Gott seine Wohnung hat,
er ist in das Schloss geführet,
das kein Unglück nie berühret.
Pois
quem parte (daqui) bem-aventurado
porque
morte alguma bate mais na sua porta
a ele
tudo será cedido de mão beijada
tudo o
que possa lhe desejar.
Ele
está na cidade firme,
onde
Deus tem a sua habitação
é
levado no palácio
que
jamais foi afetado por desgraça.
Examinando esta estrofe
sinto falta die algo correspondendo à palavra morte („Tod“). Também as
colcheias nos últimos quatro compassos parecem-me sem razão. Também teria ser
fácil para Bach ilustrar a palavra „fähret“ (anda de veículo, viaja, anda,
dirige) com mais colcheias no baixo em compasso 2, tempos 3 e 4 (C-D-E-C). Em
geral, o texto prescinde da euforia que esperamos depois do desenvolvimento nos
movimentos anteriores.
De qualquer forma, a música do hino representa uma
disposição alegre e remida.
________________________________________________________________
¹ Antigamente o fim da estrofe era um pouco diferente: "…mit den
heilgen Engeln droben ewig Gottes Gnade loben." (…com os anjos santos lá
em cima louvar eternamente a graça de Deus.)
² Veja também o hino com melodia no site russo http://peterpaul.ru/948
³ Veja também em
Kritischer Bericht zur NBA (Kantaten zum Sonntag Jubilate) p. 86
70
Resumo e palavras finais
Pela comparação das três obras do domingo Jubilate, que fazem três
depoimentos diferentes, mas ligados por certos aspectos comuns, revelam-se
traços típicos em uma nitidez como já não se percebe quando estudar uma só obra
por si. Podemos,
antes de tudo, resumir os seguintes corolários:
1) As três cantatas
apresentam grandes semelhanças. Eles não se referem tanto a caraterísticas
exteriores como ordem, instrumentação e tamanho, quanto ao material usado e
comum dos três e a trajetória do enredo. Estas trajetórias ou desenvolvimentos
do enredo já foram comparados na análise do texto. Já que a música se orienta
muito no texto, como já demos fé, a trajetória deve seguir as mesmas diretivas.
Se quiser elaborar uma gráfica assim como na análise do texto, mostrar-se-á a
mesma linha ascendente do negativo ao positivo em todas as três cantatas: (A
gráfica a seguir foi feita sem considerar as sinfonias e o hino final sem texto
da cantata 146.)
71
Diferenças em relação ao diagrama dos textos das três cantatas (página 17) ocorrem na Cantata 146 nas estrofes 2 e 4. Com elas a ascendência na gráfica virou ainda mais acidentada e menos constante do que antes no diagrama textual. Na Cantata 103 a curva no primeiro movimento foi simplificada. Se quiser diferenciar entre a parte inicial da orquestra alegre e o recitativo do baixo, no meio do primeiro movimento, cheio de sofrimento, a trajetória seria ainda mais movimentada e complicada.
Na Cantata 103 somente o quinto movimento saiu na música mais positivo do que no texto, fora disso não tem divergências.
Em BWV 12 as gráficas de texto e música são completamente idênticas.
Muitas particularidades comuns na linguagem musical provam a semelhança das afirmações em todas as três cantatas. A comparação revela o que é comum e revela o teor teológico que é a base de todas as três cantatas. A linguagem musical de Bach é intemporal e já totalmente desenvolvida nas obras dos primeiros anos, o que facilita a comparação das três cantatas.
2) A homilética na substância musical do mestre mostra-se claramente. A música aparece como irmã gêmea da prédica, que interpreta textos, assim como foi exposto e postulado em cima no capítulo “Base e princípios das composições” (página 10).
A exegese de Bach é sempre objetiva, alcançando assim quase uma identidade de música e texto, ou a música interpreta e sublima o texto em um sentido claro e perceptível, matizando e adornando-o, assombrando ou alumiando. Em ambos os casos as contribuições da música são concretos e mensuráveis, bem ao contrário de muitas músicas superficiais, sobretudo as populares, onde a mesma música pode ser usada para textos totalmente diferentes e são ouvidos sem raciocínio analítico, sem entender nada.¹ Mas também em relação a colegas eruditos como Haydn e Mozart mostra-se a objetividade e perfeição da música de Bach. Ele não musica textos de uma maneira bonita e amena, mas ele interpreta-as. Assim como Schubert se destaca com sua maneira interpretativa entre os compositores do „Lied“ alemão (canção erudita), também Bach se destaca entre os compositores. Com isso a música não somente vira igual ao texto, mas em muitos casos muito mais sublime.
________________________________________________________________
¹ Dois pintores vivem de retratos. O primeiro pinta a cabeça, depois coloca roupas, que combinam com a pessoa, escolhe bem o modo como a roupa cai e as cores, e também o fundo difere segundo a caráter e as qualidades da pessoa. O outro pinta só a cabeça, todo o resto da imagem vem já pronto do computador: uma roupa caríssima da última moda em cima de um corpo bonito e um fundo qualquer, pronto. Assim não demora, os clientes dele pagam menos e muitois gostam dos retratos industrializados.
72
Goethe, o mais famoso entre os poetas e escritores alemães, detestava essas qualidades no compositor Schubert, contemporâneo dele, porque Schubert musicou textos de Goethe e este não quis que a música fizesse sombra no texto.
Hoje, pelo contrário, valorizamos a música justamente por isso, e sentimos, como ela leva o texto consigo a um patamar mais elevado, e muitos textos viram imortais somente por causa de uma composição emocionante sobre um texto, fato notabilíssimo nas obras de muitos compositores, sobretudo nas obras de Bach e Schubert, através dos quais muitos textos medíocres sobrevivem até hoje.
3.) Em todas as três cantatas percebe-se um plano arquitetônico claro. Este segue o desenvolvimento do texto. Ligações estilísticos e arquitetônicos interligam os movimentos e revelam a unidade da cantata.
Como argamassa adicional Bach usa a numerologia, adaptando o plano arqitetônico a certos números. Como já alegado a interpretação de tais números dever ser feita sempre com o máximo cuidado, porque uma composição fornece uma grande quantidade de números e alguns deles sempre são números que têm um significado. Números simples como 3 e 7 acham-se em quase todas as obras, até em música popular, sem que eles quererem visar a Deus.
Alguns numerologistas tiram também conclusões do produto transversal¹ (Quersumme) dos números, deixando assim uma margem muito amplo de especulação. Mas ao analista mais cuidadoso só o cúmulo notável de números ou outros avisos claros podem dar a certeza de que o compositor quisesse exprimir-se também através dos números.
Na Cantata 12 constatamos uma quantidade muito grande de números, justamente na cantata mais antiga destas três, enquanto as ciências buscam por vestígios de numerologia até agora somente nas últimas obras de Bach.
A quantidade de 16 compassos da sinfonia pode ter a sua razão simplesmente na perfeição de quatro frases a quatro compassos. Os outros movimentos apresentam números que visam uma simbólica e podem ser escolhidos por deliberações numerológicas. Somente os número 62 de compassos da ária "Kreuz und Kronen sind verbunden" não permite uma interpretação plausível. E isso embora que outros números dentro da ária deixam a concluir que Bach quer transmitir algo através da numerologia.
Através de muitos livros estudados Bach foi confrontado com a arte da numerologia, que estava muito presente na Europa deste a época medieval. Ao que se sabe Bach foi um representante conservador do milênio ocidental-cristão serôdio, em que a antiguidade junto com suas raízes babilônicas e egípcias sobrevivia na Europa católica-imperial.
________________________________________________________________
¹ Soma dos dígitos ou algarismos de um número. O produto transversal de 174 é 1 + 7 + 4 = 12.
73
Certamente Bach foi ao encontro de Leibniz, que formulou a frase famosa "Musica est exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi" (A música é o exercício aritmético secreto da alma, que conta inconscientemente).¹ A música compara-se destarte com a primeira arte do antigo quadrívio das sete artes liberais (aritmética, geometria, astronomia e música). Pelo contar inconsciente constrói uma ponte a Deus.²
Não existe uma regra ou costume segundo o qual todos os movimentos devem conter números significativos. Mas, além disso, consta que em obras, em que o número total dos compassos tem um significativo, normalmente não todos os movimentos podem conter um número de compassos significativo.
Por isso fiz a seguinte conclusão: Se a soma total de compassos da cantata, que é a soma dos compassos dos movimentos (16 + 141 + 7 + 62 + 40 + 66 + 10 = 342), tiver um significado, é (quase) certo que um (ou mais) movimentos têm um número de compassos sem significativo, porque o número dele (ou deles) foi escolhido somente para chegar ao número desejado para a soma total. Se inverter essa regra pode-se concluir que o fato de um movimento de uma obra com números secretos não tiver um número significativo pode ser um indício de que a soma total significa algo. E, realmente, o número 342 leva-nos de volta ao título da cantata, a origem da trajetória percorrida nesta cantata: "Weinen, Klagen, Sorgen, Zagen, Angst u. Noth sind der Xristen Tränenbrot" – Bach escreve essa frase exatamente assim, com a palavra „und“ em abreviatura („u.“), e Christen (cristãos) com X no início, assim como se escreve em grego, embora que o resto da palavra segue a versão alemã. Com essa maneira de escrever o valor de letras dessa frase é 684, exatamente o dobro de 342.
Ouvindo a cantata ninguém percebe, mas quem verifica percebe que Bach repete o título da cantata no final, quando se conclui o último compasso e completa assim o número 342. Parece como um pastor, que no final de um sermão bem-feito repete mais uma vez o lema ou título do sermão, para que a palavra, que foi alumiada e contemplada de todos os aspectos, caia mais uma vez no coração aberto e preparado dos ouvintes.³
Com essa descoberta maravilhosa e numerologicamente notável poder-se-ia concluir essa cantata fascinante. Mas gostaria de contar um episódio da própria experiência que deve nos ensinar quão difícil é a distinção entre coincidência e números secretos propositais:
________________________________________________________________
¹ Citado em Gurlitt,W. : J.S. Bach, der Meister und sein Werk,München und Kassel, 1980, p. 49
² Veja tb. Joachim Widmann:"Das unbewusste Zählen der Seele" (O contar inconsciente da alma)
em Musik und Kirche, 52. ano, Kassel e Basel 1982, p.287
³ Sobre a contagem diferente de Hirsch, que chega a 666, veja em cima p. 41, anotação 2
74
Bach cita nessa cantata dois hinos: "Was Gott tut, das ist wohlgetan" e "Jesu, meine Freude". Para descobrir números escondidos calculei também o valor de letras destes. Para o primeiro calculei alternativamente também o valor da primeira parte "Was Gott tut". Assim recebi os valores 167 e 153, e fiquei pasmadíssimo.
Pois um dia antes decorara justamente esses dois números, porque comprara um cadeado de números para a minha nova bicicleta. Se eu fosse uma pessoa famosa os analíticos teriam bastante material para inventar interpretações, ainda mais porque a bicicleta era um presente da Associação Johann Sebastian Bach de Hamburgo. Poderia se especular que tivesse manipulação, ou, pelo menos, que eu tivesse escolhido entre muitos um cadeado com estes dois números importantes de minha tese, que escrevi nestes dias. Mas na verdade comprei o cadeado antes de conhecer os números. Foi, então, por mais incrível que seja, mera coincidência.
4.) O resultado mais importante e mais satisfatório do trabalho comparativo é para mim, que destarte as qualidades, especialidades e belezas na composição do grande mestre transluzem mais claro. Muito do que podíamos descobrir como qualidade comum das três cantatas, vale também para outras obras de Bach. O mestre fala em uma maneira direta para nós ouvintes ou leitores de suas obras. A linguagem dele é clara e inteligível, embora que o ouvinte de hoje, que vive ouvindo as músicas da época do romantismo e da moderna, inclusive a música popular e de filmes com seus inúmeros efeitos, tenha que se esforçar para entender as figuras sutis da música barroca. Mas depois a música de Bach fala e o sentido vira nitidamente perceptível, quanto mais nos dediquemos à sua música e comparemos as obras entre si. Por isso pode se aprender tanto somente estudando essas três cantatas.
Bach não se deteve com cada palavra, mas descreve as associações que certas palavras evocam, ou ele compõe o caráter geral da peça. As afirmações principais são transmitidas de maneira tão especial e particular, que destaca a obra de Bach da de todos os outros compositores. Não quero, neste momento, me envolver na antiga discussão sobre música programática e „Tonmalerei“ (pintura ou imitação de ruídos na música) na obra de Bach e a avaliação e definição certa das figuras e afetos. Queria somente mostrar a língua de Bach e como ele consegue exprimir conteúdos até complicados em suas composições, desde que há palavras, sentimentos ou humores que se deixam traduzir na linguagem musical, porque eles causam associações nos ouvintes que correspondem com os sentimentos evocadas pela música.¹ Ao contrário dos compositores românticos Bach não usa somente música que exprime os sentimentos, mas aplica termos múltiplos, combinando expressão sentimental da música com figuras predefinidas, mas ele descreve também termos como números ou conceitos visuais,
________________________________________________________________
¹ Por exemplo dor, Espírito Santo, alegria, e também coisas figurativas como coroa ou serpente, ao contrário de palavras como física, convenção de partido, feminismo, sindicato ou poliéster. Composições que se atreviam a compor um discurso seco feito em uma convenção de partido ou outros textos objetivos e secos não tiveram sucesso.
75
lançando também mão da numerologia e de meios não audíveis, mas visuais, que explicam-se só a quem lê a partitura. Na ciência falam de figuras, afetos, figuras afetivas, símbolos ou música programática e briga pelos termos certos. (Para ficar a largo dessa discussão uso expressões gerais, na medida do possível, assim como o pratiquei em toda a monografia. Sabemos do que os compositores querem dizer e que cada vez mais se torna perceptível como base ou fundo geral.)
As figuras têm a sua origem e sua analogia na retórica, que Bach estudou como matéria ordinária na Escola São Micael Lüneburg (Michaelisschule Lüneburg). Vários teóricos já publicaram a respeito das figuras retóricas e musicais antes da época de Bach.¹
Bach escreve uma música altamente espiritual em que vislumbra a filosofia, ou, mais exata, a teologia de sua época e igreja. Mesma tão carregada a música parece sempre perfeita. Quem não conhecesse a música de Bach e lesse esse livro ou outra obra semelhante sobre as composições de Bach, deveria esperar uma música ressecada e construída sem naturalidade. Em vez disso deparamos com uma música magistral, perfeita em si como as obras de todos os grandes compositores.
E quanto ao entrelaçamento de música e palavra encontramos uma perfeição e um equilíbrio incomparável. Música e texto formam um casal ideal, como um homem e uma mulher amorosos que se procuram, ajudam, por vezes cedendo aos desejos de um, por vezes, andando firmemente unidos na fé pelo caminho da vida para alcançarem juntos perfeição e grandeza.
Ao contrário dos outros compositores Bach afigura-se como um arquiteto que produz primeiramente a matéria prima e dispõe-na depois em formas magníficas como uma catedral gótica. Os outros compositores parecem-nos muitos mais como implementadores de conceitos e ideias; eles figuram nisso quase como um médium e são levados pela ideia. Se as obras de Beethoven são, às vezes, mais longas do que comum, a razão está na força da ideia musical exigiu esse tamanho. Quanto ao tamanho de obras do mestre de Leipzig percebemos como motivo um plano oriundo de cálculos arquitetônicos, matemático ou outros.
A musa beija os músicos e leva-os consigo a viagens para países fantásticos, dos quais eles nos contam em suas obras. Bach, no entanto, leva por sua vez a musa, levanta-a para o reino sublime da perfeição espiritual.
_________________________________________________________
¹ Compare Martin Voigt: Bach als Ausleger der Hl. Schrift (Bach como intérprete da Sacra Escritura), p. 15
76
Justamente porque conhecemos o romantismo, Wagner e a música moderna, podemos apreciar o Bach em sua verdadeira sublimidade. Aprendemos que o sentimental sozinho não pode satisfazer todas as necessidades.
"Por isso em nós surge uma saudade pela música da forma nobre e perfeita. Somos tão suscetíveis para uma teia de tons tecida com vozes independentes, como talvez nenhuma geração antes. Caminhamos pela paisagem acidentada da música moderna e temos fome e sede pelas regras arquitetônicas sublimas. ... Quem percorre as obras do mestre com atenção, ficará surpreendido pela veemência da tendência para a “Tonmalerei” (pintura ou imitação com tons, música programática). O maestro do Coral São Tomé (Thomaskantor) aproveita cada oportunidade de descrição que se encontra no texto para uma composição. ... Mas sabe em tudo guardar a medida certa. Sua „Tonmalerei“ é íntima, mas não sentimental. Abre o caminho para a fantasia do ouvinte. Por isso Bach é todo moderno. Mas seus efeitos calham sempre bem na música e jamais viram intrometidos."¹
Nisso o trabalho de Bach brota de um interior cheio de paz. Bach é como um místico, cuja alma se derrete neste oceano infinito, que nós chamamos de espírito de Deus. Seus sentimentos e emoções transluzidas por suas composições foram filtrados e purificados pela luz do que é maior de todos, e assim parecem as articulações de um cristão crente que não é sacudido pelas paixões, mas que já os sobrepujou.
Paul Hindemith disse no panegírico festivo na festa de 200 anos da morte de Bach em 1950 Hamburgo, Alemanha, concluindo: „Se uma música conseguir alinhar-nos em nosso âmago para o mais nobre, conseguiu o melhor. Se um compositor subjugar a sua música de tal maneira de que ela puder fazer este melhor, conseguiu o máximo. BACH ALCANÇOU ESSE MÁXIMO”²
________________________________________________________________
¹ Schweizer, proêmio de Bach: "Auswahl der besten Klavierwerke" (Coletânea das melhores obras para piano), Universal Ed., Wien 1929. ("Darum überkommt uns ein Sehnen nach der Musik der edlen und vollendeten Form. Wir sind für ein Tongewebe aus obligaten Stimmen empfänglich, wie vielleicht kein Geschlecht vor uns es war. Wir durchwanderten das zerrissene und zerklüftete Land der modernen Kunst und haben Hunger und Durst nach erhabener Gesetzmäßigkeit. ...Wer die Werke des Meisters mit Aufmerksamkeit durchgeht, ist von der Vehemenz der Tendenz zur Tonmalerei überrascht. Der Thomaskantor erfasst jede Gelegenheit der Schilderung, die in einem zu vertonenden Text gegeben ist. ...Aber in allem weiß er Maß zu halten. Seine Tonmalerei ist sinnig, aber nicht sinnlich. Er deutet der Phantasie des Hörers ihren Weg. So ist er durch und durch modern. Aber seine Wirkungen bleiben immer musikalisch und werden nie aufdringlich.")
² Faul Hindemith: Ein verpflichtendes Erbe, Festrede auf der Bachfeier der Hansestadt Harnburg am 12. Sept. 1950 („Ist es einer Musik gelungen, uns in unserem Wesen nach dem Edlen auszurichten, so hat sie das Beste getan. Hat ein Komponist seine Musik so weit bezwungen, dass sie dieses Beste tun konnte, so hat er das Höchste erreicht. BACH HAT DIESES HÖCHSTE ERREICHT.“)
77
Sem o fundo espiritual a música de Bach fica ininteligível e até mesmo impensável. Antes da época do esclarecimento toda a vida do homem estava interligada com a fé. Sim, a religião era expressão direta da vida. Bach é nisso um representante conservador dessa época serôdia, em que não somente os músicos e outros artistas, mas também artesões simples e outras pessoas entenderam seu trabalho como serviço religioso a Deus. Às obras do mestre antecede sempre o Iesu Iuva (Jesus, ajuda), mais expressa do que nas obras dos outros artistas, e ele conclui na consciência: Soli Deo Gloria. Na obra de Bach a música está toda no serviço ao Supremo, cuja palavra santa ela anuncia e interpreta, a quem adora e exulta.
E isso tudo em uma época em que o interesse pelo culto diminuía significativamente, e os músicos se viravam para a ópera e a música nas cortes e para a sociedade civil! E isso também em uma época, em que a arte de predicar nos cultos estava por baixo, visto do ângulo retórico-teológico e exegético.
Bach levanta-se como um profeta, solitário mas aparecendo à posteridade em uma luz pura, como uma coluna firme de fé; e ele relata em sua música da magnificência e do amor de Deus e das experiências dos seres humanos com ele. O ouvinte sente uma nesga dessa luz, mas muito chega à consciência somente através de uma análise mais profunda, e nesse trabalho comparativo sobre as três cantatas as peculariedades e semelhanças da música bachiana revelam-se luzindo claramente diante o ouvinte.
Até Nietzsche pagou respeito à grandeza espiritual do mestre escrevendo: „Quem desaprendeu o cristianismo ouve-o aqui verdadeiramente como um evangelho.” ¹
Bach alinha-se a Martinho Lutero, com quem confirma a tese de que a música sacra é exegeta das Escrituras Sagradas. Música que não queira seguir a este ideal, mas seguia seu próprio ideal, era para Bach "Geplärr", isso é berros e bueiro de bebês ou música inferior.
Em dezembro 1932 a revista francesa Revue Musicale publicou a edição especial sobre Bach. Em página 25 acha-se a citação comemorável, com cujo lema quero concluir o tratado:
„Ainsi, dans les poèmes de Bach, la force expressive est due à connaissance des livres consacrés. Il est impossible de ranimer une de ses oevres, si l’on pretend ignorer que cet organiste s’ etait fait une Bible de son orgue.” ²
___________________________________________________________
¹ Citado segundo Martin Voigt: J.S.Bach als Ausleger der Schrift, Hannover, 1986: "Wer das Christentum völlig verlernt hat, der hört es hier wirklich wie ein Evangelium."
² Tradução própria: "Assim, nas poemas de Bach, a força expressiva deve-se ao conhecimento dos livros sagrados. É impossível reanimar uma de suas obras se pretendermos ignorar de que esse organista fizera uma Bíblia de seu órgão."
Apêndice: Partituras (em partes). Literatura Albrecht, Christoph: Musik und Kirche, 52. ano, Kassel Basel 1982 Ambrose, Z.Ph.: Weinen, Klagen, Sorgen, Zagen und die antike Redekunst, em Bach-Jahrbuch 1980, 35-46 Aurifaber, Johannes: Tischreden D. Martin Luthers, Eisleben 1566 Axmacher, E.: Bachs Kantatentexte in auslegungsgeschichtlicher Hinsicht, in: Petzoldt, M. (Hrsg.): bach als Ausleger der Bibel; teologische und . musikwissenschaftliche Studien zum Werk J.S. Bachs, Göttingen 1985 Axmacher, E.: Erdmann Neumeister - ein Kantatendichter J.S. Bachs, em: M+K 1990 Bach-Jahrbücher (Livros anuários da Sociedade Bachiana) desde 1904, Leipzig, depois Berlin Bartel, D.: Hdb. der musikalischen Figurenlehre, Laaber 1985 Beyron, Georges: La symbolique musicale de J.S. Bach, au miroir des chorals de l’Orgelbüchlein. In: Positions luthérienne ano 33, 1985, p. 86 ss Blume, F.: Kurzanalyse zur Kantate 103 von J.S. Bach, em: 14.Deutsche Bachfestschrift Boyd, Malcolm: Johann Sebastian Bach – Leben und Werk – Deutsche Übersetzung: Konrad Küster, Stuttgart 1984 Dahlhaus, C.: Zur Geschichte der Permutationsfuge, em: Bach-Jb 1956 Daw, Stephen: Bach, the Choral Work, London 1986 Dehnhard, W.: Kritik der zahlensymbolischen Deutung im Werk J.S. Bachs, in: Alte Musik als ästhetische Gegenwart I (editado de Berke, D. e Hanemann, D. Kassel 1987, 450-452 Dürr, Alfred: Die Kantaten von J.S. Bach, Kassel 1971 Duparcq, Jean-Jacques: De quelques aspects de la symbolique de nombres chez J.S. Bach, in: Positions luthérienne Jg. 33, 1985, S. 69 ff Feldmann, Fritz: Numerorum mysteria, em Sonderdruck (Impressão especial) de: Hohnerstiftung, Trossingen, Archiv für Musikwissenschaft, editado de Willibald Gurlitt em conjunto com Heinrich Besseler, Walter Gerstenberg, Arnold Schmitz, Trossingen 14. ano, 1957 Fröde, Christine: Texte zu den Kantaten Motetten, Messen, Passionen und Oratorien von Johann Sebastian Bach, Leipzig 1986 Gojowy, D.: Wort und Bild in Bachs Kantatentexten, em: Mf 15/1, 1972, 27-39 Gurlitt, W.: J.S. Bach, der Meister und sein Werk, München und Kassel 1980 Hahn, Harry: Symbol und Glaube im ersten Teil des Wohltemperierten Klaviers Von J.S. Bach, Beitrag zu einer Bedeutungskunde, Wiesbaden, 1973 Herrenalber Texte 64, Karlsruhe 1985 (Nele: Wolfgang Böhme: J.S. Bach: Prediger in Tönen) Hirsch, Arthur: Die Zahl im Kantatenwerk J.S. Bachs, Neuhausen-Stuttgart 1986 Hindemith, Paul: Ein verpflichtendes Erbe, Festrede auf der Bachfeier der Hansestadt Hamburg am 12. September 1950 (Panegírico na festa comemorativa a Bach da Cidade Livre de Hamburgo, no dia 12 de setembro). Hochreither, Karl: Zur Aufführungspraxis der Vokal-Instrumentalwerke Johann Sebastian Bachs, Merseburg 1983 Hoffmann, Erbrecht, M.: Bachs Weimarer Textdichter Salomo Franck, in: J.S. Bach in Thüringen, Festgabe zum Gedenkjahr 1950, Weimar 1950 Kelletat, Herbert: Zur musikalischen Temperatur, Tomo1 e 2, Merseburger Verlag 1981/82 Kluge-Kahn, Hertha: J.S. Bach Die verschlüsselten theologischen Aussagen in seinem Spätwerk, Wolfenbüttel e Zürich 1985 Köberle, Wolfgang: J.S. Bach als Ausleger der Hl. Schrift, em: Quatember, ano 49, 1985, p. 2 ff Kühn, Karl Theodor: Das weibliche in der christlichen Mystik, Ottersberg 1985 Leiturgia, Handbuch des evang. Gottesdienstes, Bd. 1-5, Hrsg: Karl Ferdinand Müller und Walter Blankenburg, Kassel 1955 Lutherische Liturgische Konferenz: Die Kantate J.S. Bachs im Gottesdienst, Hänssler 1985 Maurer, Bernhard: J.S. Bach als Klangsymbol des Glaubens, in: Pastoraltheologie, tomo 73, 1984, p. 66 ss Missale Romanum, Editio Vaticanum Musik und Kirche, 52. ano, Kassel und Basel 1982 (Nele: Joachim Widmann: das unbewusste Zählen der Seele) Neumann, W.: J.S. Bachs Chorfuge, Leipzig 1938 Ochlewski, Tadeusz: Lustro Liczb, Warszawa 1968 Petzold, Martin: Bach als Ausleger der Bibel, Göttingen 1985 (Nele: Walter Blankenburg: Aufklärungsauslegung der Bibel in Leipzig zur Zeit Bachs.) Petzold, Martin: Schlusschoräle ohne Textmarken in der Überlieferung von Kantaten J.S. Bachs (em Musik und Kirche, 59. anuário, 1989) Rilling, H.: J.S. Bachs H-moll-Messe, Neuhausen-Stuttgart 1979 (Veja nele Vergleich des Crucifixus mit BWV 12) Schering, A.: Bach und das Symbol, in Bach-Jb 1923, 1928 und 1937 Schering, A.: Das Symbol in der Musik, Leipzig 1941 Schering, Arnold: Johann Sebastian Bachs Leipziger Kirchenmusik – Studien und Wege zu ihrer Erkenntnis. Leipzig 1936 Schmitz, A.: Die Bildlichkeit der wortgebundenen Musik J.S. Bachs, Mainz 1949 Schöneweiß, Susanne: Monografia: Die Kantaten J.S. Bachs zum Sonntag Jubilate, Hamburg 1986 Schreier, M.: Comentário no disco vinil: Bach: Kantaten Nr. 12 und 146 (Maestro Rilling), Stuttgart 1981 (Hänssler) Schweitzer, A.: J.S. Bach, Leipzig 1908 (a Edição de Wiesbaden 1957 tem menos páginas, deve-se diminuir a paginação por umas 29 páginas) Schweitzer, A.: Proêmio a „Auswahl der besten Klavierwerke“ (Ed. H. Neumayr) Wien 1929 Schwendowius, B. und Dömling, W. (Hrsg.): J.S. Bach. Zeit, Leben, Wirken. Kassel 1976 (Polydor intern.) Smend, Friedrich: Bach-Studien, Kassel 1969 Smend, Friedrich: J.S. Bach bei seinem Namen gerufen. Eine Noteninschrift und ihre Deutung. Kassel e Basel 1950 Smend, Friedrich: J.S. Bach Kirchenkantaten, Berlin 1950 Spindler, W: Untersuchungen zum Wort-Ton-Verhältnis in den Kantaten J.S. Bachs. Die musikalische Umsetzung der Rezitativtexte, Dissertação Erlangen 1973 Spitta, Ph.: J.S. Bach, Wiesbaden 1979 (8. tiragem) Spitta, Ph.: Mariane von Ziegler und J.S. Bach, in: Zur Musik, 16 Aufsätze, Berlin 1892, p. 93 ss Stiller, Günther: Bach und das Leipziger gottesdienstliche Leben seiner Zeit, Evangelische Verlagsanstalt Berlin 1970 Thieme, U.: Die Affektenlehre im philosophischen und musikalischen Denken des Barock, em: Tibia 1983/2 Unger, H.H.: Die Beziehungen zwischen Musik und Rhetorik im 16. – 18. Jh., Dissertação filológica, Berlin 1941 Voigt, Martin: J.S. Bach als Ausleger der Hl. Schrift, Hannover 1986 Werckmeister, A.: Harmonogia Musica, Halberstadt 1702 Werckmeister, A.: Musikalische Paradoxal-Discourse, Quedlinburg 1707 Widmann, Joachim: Das unbewusste Zählen der Seele. Em: Musik und Kirche, 52. ano, Kassel 1982 De Wilka, H. Mathilda Meta: Azar, azedume e o sacudir desse. Curitiba 1991 Wustmann, R.: J.S. Bachs geistliche und weltliche Kantatentexte, Wiesbaden 1967 http://www.bach-cantatas.com/BGA/BWV103-BGA.pdf http://www.bach-cantatas.com/BGA/BWV146-BGA.pdf Livros e artigos de Axel Bergstedt: Os reis no trono de Davi. (Os vinte reis de Judá depois de Salomão) Curso de Teoria de Música em quatro Níveis A. Bergstedt: Parábolas Confessionalidade na música – Ouvir e entender música Regras na tradução de textos de músicas Ateísmo: Parábolas e reflexões sobre o ateísmo na luz da lógica e das ciências Como o Espírito Santo fala conosco ainda hoje Os sacramentos O costume de tomar banho como expressão cultural e corporal na história da cristandade Jonas (Uma viagem de bicicleta pelo Brasil com acontecimentos misteriosos visando à história do povo de Israel) Em português ou alemão (livro ou E-book ). Outros links: Facebook Hinário Luterano Tocado (e Cantado)
|